<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950</id><updated>2011-07-30T10:07:03.199-07:00</updated><title type='text'>OS MIL E UM PESADELOS</title><subtitle type='html'>Este blog contém 06 de 101 capítulos do livro "OS MIL E UM PESADELOS", de Rômulo Cyríaco, escrito de 2005 a 2007. Os capítulos podem ser lidos em ordem aleatória.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>6</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-1782033084393619376</id><published>2007-05-23T19:25:00.002-07:00</published><updated>2011-07-19T14:23:54.107-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #1</title><content type='html'>&lt;p style="color: rgb(255, 255, 255);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size:large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;span style="text-transform: uppercase; "&gt;ERA uma vez&lt;/span&gt;&lt;span&gt; que já não é mais um par de seres humanos aparentemente do sexo masculino &lt;/span&gt;&lt;span&gt;que eram meio suspeitos meio não-suspeitos. &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Tão&lt;/i&gt; meio suspeitos porém que suspeitavam de si mesmos, a metade suspeita invadia a metade não-suspeita 51% 52% e assim por diante eles não eram muito nem pouco seguros quanto a sua sexualidade. A certeza de ser homem, em outras palavras gostar de mulher, ser = gostar, não permanecia estável por muito tempo em suas mentes até que uma violenta enxurrada de incertezas espinhosas (...) terrível destrutível avalanche de dúvidas petrificadas arenosas desintegrantes resultada de uma grave erosão cerebral &lt;/span&gt;&lt;span&gt;descesse furiosa rolando inchando pico a baixo arrastando consigo embolando sem qualquer piedade memórias &amp;amp; neurônios &amp;amp; massa cinzenta &amp;amp; tudo misturado dando forma ou melhor deforma a uma imensa gororoba híbrida não individuada que deslizava e crescia como uma bola de neve quente ou de lava fria naquele complexo e no entanto frágil monte de retalhos que era sua mente retalhada. Não é por acaso que a "mente" tem esse nome; em vez de ser chamada de "diz a verdade". Os rapazes não eram muito seguros por si mesmos ou seja quase morriam de medo de querer segurar um no outro de repente e às vezes se distanciavam por conta disso. Quase morriam mesmo, de medo. Severas vezes em estado grave na UTI, o Último Território para os Indefinidos, por causa do medo &amp;amp; choques reanimadores para recuperar o ânimo &amp;amp; respiração boca a boca sempre executada por um enfermeiro aproveitador &amp;amp; que quando discutia teatro alegava não acreditar em beijo técnico, baboseira beijo técnico. Não sabiam nem muito nem pouco bem quanto a sua sexualidade, aquele suspeitíssimo par de seres humanos meio totalmente suspeitos, muito pouco senhores de si, talvez até mesmo senhoras. Não sabiam nem mesmo se a sua sexualidade era realmente sua; podia ser de outro, nunca se sabe. Vai saber. Detestavam com muito ódio que se referissem a eles como a um par; por isso diziam ser ímpar, pois de par a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;dupla&lt;/i&gt; é um pulo; e de dupla a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;casal&lt;/i&gt; é outro, um pulinho &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ai. Quando um trovão rasga o céu com virilidade traçando no mesmo suas belíssimas estrias elétricas ramificadas anunciando o temporal que está por vir, amplificando seu estrondo por toda a extensão da terra, alguns adultos dizem para algumas crianças que se trata de Deus arrastando seus móveis, mudando a disposição de sua mobília para dar um novo visual aos cômodos do Paraíso; quando enfim cai a chuva, ejaculada com força pelas pesadas nuvens negras, dizem se tratar de Deus chorando ou lavando o chão do seu divino apartamento ou simplesmente derramando baldes d’água sobre nossas cabeças quentes e confusas com o intuito de lavar e refrescar a superfície deste velho e gasto, pretensioso planeta; um talentoso decorador de trejeitos afeminados que sempre tirara boas notas em provas porque decorava toda a matéria com muita facilidade morreu e quando chegou aos aposentos celestes a primeira coisa que fez foi observar ao redor para notar a decoração, e logo exclamou admirado e boquiaberto dizendo que achara “divino”; e quando neva, por fim, dizem se tratar do esperma de Deus congelado pelo frio caindo em bonitos flocos para semear o nosso fértil imaginário. Disseram: apoiamos com veemência a legalização do aborto porque toda gravidez é inevitavelmente grave, está no nome &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; gravidez; e quando é grave demais, o aborto pode ser legal; pois quando é grave demais, de uma maneira ou de outra algo é abortado; em certos casos, trata-se de escolher entre abortar ou abortar-se. É esta a tal lei da gravidade de que tanto falam, mas a qual nunca aprovam. As dúvidas sobre (e sob) a sexualidade eram tão fortes tão fortes que por causa da incontável quantidade de energia psíquica que exigiam materializavam fétidas bolas de carne má que rolavam trêmulas em alta velocidade ao redor das paredes internas do crânio dos pobres (talvez) garotos. Visualizem aquele famoso número de cinco quer dizer de circo no qual um motoqueiro kamikaze todo de couro preto feito um cavaleiro sadomasoquista gira com sua motocicleta espetacular no interior de um enorme globo metálico desafiando a morte e soltando faíscas, era mais ou menos mais pra mais do que pra menos assim o terrível temível espetáculo que se enrolava na parte de dentro de suas cabeças consumidas e sobrecarregadas pela dúvida; espetáculo horroroso observado arregaladamente por todos os neurônios nervosos apavorados boquiabertos &amp;amp; trêmulos feito finos músculos estriados que se convulsionam involuntariamente e têm propensão à câimbra; nada pior nesse mundo (ou em qualquer outro mundo) do que câimbra no cérebro, ou no cerebelo, ou no bulbo, algo que não se deseja nem para o seu melhor amigo; por causa da impossibilidade, intrínseca à vida, de se ter certeza absoluta a respeito de nós mesmos, os coitados pensavam tanto em sexo que seus neurônios aos poucos se transformavam em espasmódicos espermatozóides cerebrais de carne seca que aos poucos produziam e faziam escorrer grosso esperma pelas suas orelhas; neurônios enfraquecidos &amp;amp; que por se concentrarem tanto nos giros insanos daquele estranho e concentrado pedaço de matéria ruim acabavam prejudicando outras atividades mentais abordadas pelos que o usual, e olha que geralmente o usual é sempre mais devastador do meninos. &lt;span style="text-transform:uppercase"&gt;A&lt;/span&gt;lém disso, para completar este sinistro quadro de horror craniano, aquelas pegajosas e pálidas bolas de dúvida elástica grudavam feito chiclete em seus cérebros conforme perdiam velocidade, e isso, senhoras e senhores, senhoras e senhoras, senhores e senhores, é muito pior do que chiclete grudado em cabelo, porque o material do chiclete se confunde com o do cérebro e na hora de extrair a goma sempre acaba vindo algum miolo junto. Aquém disso, senhores-senhoras e senhoras-senhores, ambos eram muito novinhos e ainda inexperientes no que não dizia desrespeito ao sexo, ou seja pouco velhos e não possuíam nenhuma experiência sexual por mais que a rigor isso seja absolutamente impossível porque toda experiência é de alguma maneira sexual. Como a memória se vai e nesse caso o tempo foi bem mais devastador do que o tempo, não posso garantir que eram totalmente virgens; mas se fosse preciso apostar, este seria o meu cavalo. Recente pesquisa internacional revelou que 88% da polução quer dizer da população mundial não consegue dissociar os cavalos de seus pênis enormes; ouvem ou lêem ou mesmo falam a palavra cavalo e a primeira imagem que bate bruscamente contra os olhos de suas mentes é a do pênis bruto, o músculo roliço escandalosamente grosso e grande, o escuro bastão rude &amp;amp; malevolente que o eqüino carrega balançando como um pêndulo orgânico entre suas pernas traseiras. Não é por mero acaso que costumam apelidar de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;cavalos&lt;/i&gt; os homens superdotados que usam cueca GG (nem é preciso dizer o que essa sigla significa) até porque: nenhum acaso é mero. Como dizem aqueles estúpidos adesivos nos carros “o acaso não existe” &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; mas no que nos interessa tal frase não remete a nada de cósmico ou espiritual, ela apenas confirma o pau do cavalo. O pau cósmico e espiritual do cavalo; que num simples relance faz a alma do observador tremer e se arrepiar, e talvez com isso alterar o curso do seu destino. Apenas depois desta primeira porrada visual, que abala e agride violentamente todo o sistema nervoso, é que as pessoas conseguem visualizar o resto do animal, tronco, cabeça, crina, &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;rabo&lt;/i&gt;. E até mesmo os outros 12% restantes, que imaginam primeiramente o animal inteiro ou alguma outra parte do mesmo que não seja o pênis é apenas porque tiveram sucesso em afastar, após um esforço hercúleo, a imagem do rolo compressor; o batom de carne, ainda sob névoas, que se anunciava ameaçadoramente no fim do aparelho psíquico. “O acaso não existe” todas estas frases bestas nos vidros dos carros só confirmam, mais uma vez, o pau do cavalo. Até porque, citando um recente artigo de jornal, “Tudo é, não existe nada que não seja por acaso; o problema é que, na verdade, são precisamente as maiores coincidências que mais nos fazem considerar ideias como destino etc.; nossa razão tende a resistir às grandes co-incidências e, entre outras coisas, pode evocar a Razão superior de Deus, este Sujeito que supostamente passaria os dias a encadear e desencadear todas as peças da existência olhando de cima, como se a Terra não passasse de um imenso tabuleiro e nós, as pequenas peças do Jogo da Vida; muitos recorrem à ideia de Deus quando estão à procura de um sentido para a vida, mas, por outro lado, se Deus existisse, onipotente, onisciente, onipresente, é que a vida não faria o menor sentido”. Disseram: só o acaso existe. Isso me faz lembrar de uma outra pesquisa, similar a do cavalo, que salientou bem salientado como quem excita uma genitália generosa a grande parcela da população universal que associa o trem, meio de transporte, ao órgão genital masculino, primeiro meio de transporte no qual todos nós um dia andamos quando ainda éramos minúsculos espermatozóides dentro do saco enrugado de papai loucos para sermos cuspidos gritando me ejacula, me ejacula! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; e de pensar que um dia nós que hoje ejaculamos no interior de corpos &amp;amp; camisinhas já fomos nós mesmos ejaculados após fazermos um passeio radical impulsionados através de uma uretra estreita com vários amiguinhos menos sortudos – se você está vivo, você já foi sorteado: acredite: ganhar na loteria é possível – como num micro parque de diversões no interior de um corpo humano, um micro parque aquático em vez de água esperma. Os túneis por sua vez são associados às vaginas &amp;amp; aos cus porque são constante diretamente penetrados &amp;amp; rasgados &amp;amp; atravessados pelos furiosos &amp;amp; indomáveis &amp;amp; duros trens; trens que se entortam e se envergam e endurecem e amolecem pingando aço líquido. O que ninguém sabe, pois todo o mundo sabe que o governo insiste em esconder do povo certas e também erradas informações é que quando um trem penetra mais de uma dezena de túneis durante uma jornada de trabalho é precisamente quando ele esguicha a fumaça branca pela sua chaminé, aquele barulho que ele faz é o seu gemido metálico de prazer, o famoso piuí, o trem exige carvão para funcionar porque é a queima do mineral que o permite produzir &amp;amp; ejacular a sua porra a vapor através de sua uretra de ferro. Um trem elétrico como hoje existe mundo a fora (e mundo a dentro no caso dos metrôs) é mais ou menos como um pênis sexualmente ativo porém desprovido de bolsa escrotal. Por mais que a multidão que costuma andar nos metrôs entrando e saindo deles o dia todo mais pareça um bando de espermatozóides hiperativos pancados da ideia ainda assim os coitados dos trens elétricos são como homens que sofreram muito mais do que uma vasectomia, sacos totalmente retirados mesmo. Os metrôs mais arrogantes costumam dizer que não são sem-sacos, mas que na verdade praticam sexo tântrico, voluntariamente rejeitam-se a ejacular porque seria supostamente um desperdício de energia vital/ferroviária. As feministas mais ortodoxas protestaram com violência contra esta pesquisa porque nesta enquanto o homem figura como uma máquina móvel &amp;amp; ativa que passa os dias atravessando várias mulheres diferentes as mulheres aparecem como buracos imóveis &amp;amp; fiéis que ficam esperando passivamente pelos seus másculos &amp;amp; viris trens como donas-de-casa ferroviárias. O protesto amorteceu consideravelmente quando o &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;órgão&lt;/i&gt; irresponsável pela tal pesquisa esclareceu a elas que na verdade as mulheres estavam representadas ali como buracos imóveis sim mas buracos imóveis que eram atravessados por diferentes&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt; &lt;/i&gt;&amp;amp; inúmeros&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt; &lt;/i&gt;trens durante a jornada e não somente por um único como faria uma dona-de-casa à moda antiga. O argumento as satisfez relativamente e dessa forma o conflito foi temporariamente encerrado, nós mesmos concordamos que se fosse para escolher entre uma coisa e outra seria muito melhor ser puta ativa do que otária passiva. Elas logo voltaram a reclamar por mobilidade, exigindo que os túneis passassem a se locomover também assim como os trens não mais esperando por estes mas indo de encontro aos mesmos, os surpreendendo quando estes menos esperassem. Vai haver um trem parado e de repente... vem um túnel aí. Voltando ao que não interessa: aqueles dois rapazes meio sei-lá, vistos de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;muito &lt;/i&gt;longe, pareciam duas formigas... Vistos um pouco mais de perto, mas ainda assim de longe, pareciam duas pessoas muito diferentes uma da outra. &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Tão&lt;/i&gt; diferentes entre si que os outros, todos aqueles que não eram eles, cochichavam com fervor, boca no ouvido feito sexo oral, dois dedinhos alargando o buraco da orelha do outro como quem separa cuidadosamente os lábios ensopados de uma vagina, quando os rapazes passavam andando sem mãos dadas, perguntando-se que Diabos eles poderiam ter em comum para serem tão amigos? Mal sabiam eles, os outros, que na verdade os rapazes tinham &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;vários &lt;/i&gt;Diabos em comum, pois às vezes quando estavam sem dinheiro rachavam entre si (a famosa vaquinha) para comprarem um Diabo ou outro e depois dividiam estes Diabos alternando o uso dos mesmos. Quando um deles estava utilizando um dos Diabos, o outro usava um outro Diabo e vice-versa, depois eles trocavam, Diabo pra cá &amp;amp; Diabo pra lá. Os outros cochichavam com fervor, mesmo, quase ferviam um na orelha do outro feito sexo oral a ponto de sentirem o gostinho agridoce da cera alheia na ponta de suas línguas, a ponta molhadinha de suas línguas na entradinha morna da orelha do outro abismados como se se tratasse de um grande mistério do universo, um enigma milenar, as pirâmides do Egito, o Triângulo das Bermudas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Os opostos se atraem! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; um deles dizia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Mas &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;isso&lt;/i&gt; aí é um paradoxo! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; dois deles diziam, apontando para os (talvez) rapazes. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;– &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Eles são como água e vinho, Jesus Cristo! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Tudo o que inicialmente se atrai, posteriormente se trai &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; é a famosa lei da atraição. Abrindo um parêntese: é preciso que parem de pensar que &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;relação sexual&lt;/span&gt; só acontece quando há penetração, é a maior mentira já contada em toda a história da humanidade, não eduque seus filhos com essa mentalidade. Durante o dia e também à noite, na rua e nos escritórios, ao ar livre e no claustro, na padaria e nos açougues, nos meios de transporte popular, nos lugares púbicos, quer dizer, públicos, mais variados possíveis, bilhões de relações sexuais (e bissexuais) acontecem sem ao menos serem percebidas pelas pessoas ao redor e às vezes nem mesmo pelos próprios parceiros atuantes. O funcionário homossexual da padaria alisa suavemente as bisnagas quentes imaginando pirocas em estado de ebulição e discretamente suas pálpebras tremem e ele goza vocês sabem por onde. Ele chama a bisnaga pelo carinhoso apelido de Consolo de Trigo, daí aquele cheirinho esquisito que se misturou ao da manteiga derretida no miolo do seu lanche. Ele mete uma ponta da bisnaga no cu e contorce o tronco para abocanhar um pedaço da outra ponta, comendo o que o come, alimentando-se do que o fode. “Depois que o meu intestino trabalhar vai tudo sair pelo cu mesmo”, ele diz orgulhoso. Seu sonho desde pequeno era cagar um pênis digerido que ele teria devorado anteriormente num boquete carnívoro. O açougueiro frustrado, com seu facão enferrujado cheio de tétano, abre uma boceta no meio de um pedaço de picanha crua sangrenta, enfia o dedo ali como se fosse para limpar alguma coisa, tirar gordura ou pelanca, mas na verdade vocês imaginam (muito a contragosto, eu sei) sua verdadeira intenção. Devo divulgar &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; contra a vontade do meu estômago &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; que às vezes o açougueiro não resiste ao tesão e se retira para o banheiro do açougue com o pedaço de picanha aberta que ele acabou de seduzir &lt;st1:personname productid="em segredo. E" st="on"&gt;em  segredo. E&lt;/st1:personname&gt; para aqueles que se perguntaram mentalmente, diante deste cruel relato, aqui vai a triste resposta: sim. Infelizmente: sim. Ele pendura a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;mesma &lt;/i&gt;picanha na vitrine; ele põe a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;mesma &lt;/i&gt;picanha novamente à venda, exposta aos consumidores desavisados. Esse cara é um dos que ignoraram totalmente a máxima civilizatória de que não se deve misturar o trabalho com o prazer. Em seus dias mais ousados, quando alguém vem comprar carne e escolhe uma peça recém-fodida, ele resmunga com ironia, só ele compreendendo a piada: “Ah, vai levar essa aí? Boa escolha! Já &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;comi&lt;/i&gt;...” Piada interna. Piada interna é aquela que o coração conta para os rins e principalmente aquela que o intestino conta para o coração, o soluço é sempre um sinal de que nossos órgãos estão rindo de alguma piada interna. Mas como dizem as mulheres mais prevenidas: &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;em caso de soluço, basta contrair o diafragma.&lt;/i&gt; A mesma &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;exata &lt;/i&gt;picanha que vai virar churrasco no seu quintal domingo e você vai saborear e lamber os dedos molhados de caldo, tempero, sangue, &amp;amp; resíduos do esperma do açougueiro frustrado. Seus amigos bêbados deliciados com a carninha cheirosa vão perguntar em que açougue você comprou aquela peça e você vai com prazer e ignorância fazer a propaganda. “Você vende muito bem aqui, senhor açougueiro frustrado. Que mal lhe pergunte, que tipo de publicidade o senhor faz?”, pergunta o cliente, que sem saber ainda leva em seu estômago alguns espermatozóides cambaleantes, 36 horas de vida após saírem do enorme saco (enorme por conter &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;treze &lt;/i&gt;testículos) do açougueiro frustrado, que responde tirando sebo da virilha com as unhas pretas, imundas: “Ah, meu amigo... Eu me dou bem só no boca a boca!” &amp;amp; sorri, exibindo seus escassos dentes podres. Bom, de qualquer maneira, é essa a filosofia do churrasco: o fogo mata todas as bactérias; ou quase todas. Eu mesmo conheci de perto uma cobradora de ônibus chamada Maria Dura, na época uma verdadeira lenda viva, hoje uma verdadeira lenda morta, parte integrante e desintegrante da mitologia urbana sexual da cidade do Rio de Janeiro. Maria Dura se matriculou num curso de verão que estava sendo oferecido numa saleta minúscula e infestada de ratos num prédio sujismundo da Avenida Central que ensinava em poucas semanas uma técnica oriental milenar que dava aos seus alunos a avançada habilidade de fazer gozar qualquer parceiro(a) com apenas um simples toque na palma da mão do(a) mesmo(a). Maria Dura se encantou de tal maneira com tal objeto de estudo que acabou sendo (aliás, não só &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;acabou&lt;/i&gt; sendo mas desde o começo &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;já era&lt;/i&gt;) uma aluna mais do que exemplar, admirada intensamente por todos os professores, que no fim do curso comunicaram à turma orgulhosos e destruídos ao mesmo tempo: “É, parece que às vezes acontece do aprendiz superar o mestre”. Maria Dura ficou terrivelmente feliz por isso. Somente assim, com a descoberta desse dom, é que ela conseguiu suportar a estafante rotina de trabalho à qual estava submetida na linha S&amp;amp;M-20, seu expediente ficando cada vez mais duro como um pênis que se excita num crescendo até virar pedra como se encarasse a Medusa &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; &amp;amp; mesmo tendo virado pedra o pênis continua a endurecer até explodir músculo e sangue petrificado para todos os cantos e lados, veias arrebentadas. Por esse motivo ela desenvolveu para si um passatempo que a distraía consideravelmente ao longo das cansativas jornadas. Conforme os passageiros passavam pela roleta e depositavam o dinheiro em sua mão, Maria Dura apenas movia ligeiramente o dedo indicador para cima de modo que este roçasse a palma da mão do passageiro, que em 100,1% das vezes dava uma violenta tremida de êxtase com todos os pêlos do corpo eriçados sofrendo involuntariamente o inenarrável prazer de múltiplos orgasmos oceânicos. Alguns destes privilegiados, instantaneamente (&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;tão &lt;/i&gt;instantaneamente que quase prejudicavam o funcionamento do tempo e conseguiam gozar &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;no passado&lt;/i&gt;) se apaixonavam perdidamente pela mulher, venderiam a mãe no mercado negro pela mulher, os olhos brilhando pela mulher, irradiando estrelas e fagulhas pela mulher, como cena de amor à primeira vista em filme romântico (à milésima potência) enfim tudo pela mulher. Quando o gozo terminava e o passageiro aos poucos recuperava a razão, julgava se tratar de, sei lá, magia negra sexual ou qualquer outra coisa mística que transcendia a vivência física do corpo e fazia a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;alma &lt;/i&gt;ejacular. E como todos nós sabemos por experiência (ou inexperiência) própria não há ser humano vivo que não tenha como maior meta, maior objetivo de vida a total satisfação sexual. Jorrar gozo até o coração parar e o espírito deixar os ossos. Mesmo um jornalista celibatário por exemplo que só quer saber de trabalho e não se relaciona sexualmente com ninguém vai acabar metendo o pau no jornal ou o jornal no cu após enrolá-lo (ou seja deixá-lo no formato de uma rola) muito bem enrolado. Até morrer. Só quando o orgasmo coincide com a morte é que há a verdadeira satisfação sexual. Orgasmorte. Maria Dura aprimorou tanto a sua técnica que com apenas um leve toque (e às vezes até menos, menos que leve, menos que toque) da ponta do seu dedo mindinho na palma da mão do (ainda desavisado) parceiro, este gozava tudo o que tinha dentro de si que fosse líquido, e quando não morria desidratado no mesmo instante sobrevivia completamente desinteressado por sexo para o resto da vida, em estado catatônico, pois só o desejo sexual move alguém nessa vida (e duvido que na outra seja diferente). Vítima da total satisfação sexual, o que um dia o doutor Sigmund Freud julgou ser impossível, mas apenas porque o doutor Sigmund Freud não viveu o suficiente para conhecer Maria Dura, a terrível cobradora. Alguns, quando não havia mais qualquer líquido para ser ejaculado e expelido do corpo, murchos feito maracujás, gozavam algum órgão interior. Eu estava lá quando uma pobre mulher ejaculou seus próprios rins, cheios de cálculos &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ela era professora de matemática, numa velha escola púbica quer dizer pública. Eu estava lá quando um homem expeliu pela uretra seus próprios pulmões danificados pelo fumo, um a cada esguicho sofrido de longo alcance, um dos pulmões caiu no colo de um mendigo sujo espumante &lt;span style="display:none;mso-hide:all"&gt;ida morreu. Transformou-se em defunto. todos os ladfos. diz a verdadee. &lt;/span&gt;que logo desencavou dele uma ponta de cigarro fossilizado e fumou desesperado, e depois caiu morto, transformou-se em defunto e fedeu todo o ônibus. Eu estava lá (sim, eu estava lá) quando um jovem rapaz gozou seu único testículo, seguido de seu coração, que pulou coitado cuspido pela boquinha do pau e caiu no chão ainda batendo, animado, debatendo-se com vida própria como um peixe epilético recém tirado do mar, fora d‘água, pinto no lixo, louco para voltar e respirar. Visualizem as galinhas que continuam andando de um lado a outro piradas mesmo após terem suas cabeças decepadas por machados afiados dando algumas voltinhas antes de morrerem por completo, mais ou menos assim o jovenzinho abismado &amp;amp; siderado &amp;amp; arrasado &amp;amp; tendo perdido o órgão do amor ainda mirava Maria Dura com doçura no olhar, profundo, olhar que se esvaziava rapidamente enquanto ainda lhe restavam alguns poucos segundos de vida no resto do corpo antes do cérebro morrer. E para a surpresa geral, muito inesperadamente, em menos de três segundos ele compôs um poema e o recitou no ar com sua voz moribunda: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt;line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Gozo por ti meu coração com ternura. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt;line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;span&gt;Por ti, minha querida ruína, Maria Dura&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span&gt;,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&amp;amp; caiu duro feito pedra, feito músculo ereto atrofiado, nervo esticado, bacon podre endurecido enfurecido fritando no chão quente e metálico do ônibus. Já as mulheres geralmente quando eram tocadas pela fantástica cobradora sofriam múltiplos orgasmos múltiplos, orgasmos em quantidades que desafiavam os limites da matemática &amp;amp; encharcavam para sempre suas calças. “Meu Deus, não há sol que vá secar isso aqui!”, ouvi uma delas exclamar certa vez com as pernas tremendo &amp;amp; a boca retorcida em espasmos involuntários &amp;amp; deixando escapar gemidos doloridos &amp;amp; dolorosos &amp;amp; gemidos que o resto dos passageiros não sabia identificar se eram de prazer ou de dor ou se a mulher estava sendo possuída por um espírito ruim como num ataque epilético nascido da catarse sexual máxima &amp;amp; mais de trinta passageiros esperando ansiosos atrás da mulher amontoados com impaciência atrás da roleta (mistura de rola com boceta) aguardando para serem abençoados (ou amaldiçoados?) com o &lt;span style="text-transform:uppercase"&gt;todavia&lt;/span&gt; &lt;span style="text-transform: uppercase"&gt;sagrado&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;toque de Maria.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Costumam dizer que os seres humanos do sexo masculino pensam com a cabeça de baixo, isto é, com a cabeça do pau &amp;amp; esse ditado muito popular não está de todo errado, há uma explicação científica para tal fenômeno masculino. Por exemplo: depois do almoço, grande parcela do nosso sangue fica concentrada no estômago trabalhando na digestão da comida ingerida, isso faz com que nos reste muito pouco sangue no cérebro &amp;amp; é por isso que após passarmos por uma refeição mais farta sentimos aquela lerdeza, aquela grande moleza acompanhada de um sono quase irresistível &amp;amp; muito pouca disposição para exercícios físicos ou mentais. Resumindo: depois do almoço do lanche ou do jantar não pensamos direito, nosso pensamento fica temporariamente perdido no estômago. O que acontece com um homem de pau duro é muito similar, principalmente se o pau for GG: o sangue está quase inteiramente concentrado na ereção ou seja o homem está com muito pouco sangue no cérebro &amp;amp; não está raciocinando direito &amp;amp; só consegue pensar em meter a pica, transar, foder, enfiar a vara, esconder a piroca, onde for, no primeiro buraco que for, ou no primeiro buraco que apenas estiver, que ainda nem tenha se constituído como ser, não precisa nem ser, basta estar, trepar, rasgar, meter, meter, mesmo que seja por cima de mil cadáveres. Ou mesmo que seja &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;num destes mil cadáveres&lt;/i&gt;. No metrô um coroa casado indo ao trabalho roça com o dorso do braço os apetitosos melões da gostosa ao lado agindo como se não percebesse, como se seu braço estivesse ali apenas porque tinha de estar, porque assim o destino queria, destino concretizado pelos empurrões intrusivos da multidão ensandecida que involuntariamente pressiona uns contra os outros e provoca pequenos encontros sexuais dados ao acaso. É absurda e inacreditável a quantidade de pênis estranhos que roçam bundas e vaginas estranhas durante o dia, nos meios de transporte lotados; se você é homem e precisa atravessar todo um ônibus cheio para saltar do mesmo, pedindo licença e se acotovelando através do corredor abarrotado, passando e roçando de bunda em bunda, de vagina em vagina, quando enfim estiver descendo do automóvel você praticamente terá somado ou reunido uma relação sexual inteira, de pedaço em pedaço que for acumulando. Assim, um empurrão intrusivo era exatamente o que o coroa sentia vontade de dar com seu pênis entre as pernas abertas daquela mulher: um empurrão intrusivo. Ele age como se não percebesse. Melões? Onde? “O acaso não existe” se isso fosse verdade seria também verdade que o braço do homem estava nos peitos da mulher porque deveria estar, porque era um fato previamente inscrito no cosmos, previamente escrito na palma da mão daquele homem, palma que estava doida para apalpar largamente aquelas tetas de enlouquecer, salientadas por um decote em V (de Vagina). Mas não vão pensando vocês que a mulher não nota que aquele toque é voluntário, ela apenas finge não notar para que seus mamilos continuem sendo acariciados pelo braço do homem no ritmo sexual do sacolejo do metrô, ela está apreciando, seus mamilos endurecem, o homem os sente durinhos em seu braço e seu pau começa a endurecer, seu sangue desaba quase todo do cérebro e desce correndo através das veias estufadas para irrigar o pau, a mulher ainda finge nada notar, discretamente ela abaixa os olhos na diagonal e enxerga o volume que incha a calça jeans do cara, seus mamilos endurecem ainda mais, o pau do cara também. Eles trocam apenas um ou dois olhares embaçados, de relance. Ambos fingem que vão olhar alguma coisa no fundo do vagão, virando a cabeça, e tanto na ida quanto na volta lançam um olhar intuitivo e desfocado no rosto do outro e logo desviam. O homem não faz a menor ideia de que a mulher também quer sexo e segue como se fosse um pervertido se aproveitando de alguém, um tarado fodendo uma vagina em estado de coma. Pois em qualquer escorregão que demonstrasse sua voluntariedade ele correria o risco de levar um tapa na cara em público e passar vergonha: e todos olhariam na direção do pau dele. A mulher continua fingindo porque sabe que se o cara notar que ela percebe vai temer o tapa na cara e parar de molestá-la. E não é que ele se incomodasse tanto assim com a ideia do tapa; levar um tapa na cara em público ainda seria um fator circunscrito em seus fetiches masoquistas. Porém, ele queria gozar aquela manhã, e o tapa seria uma interrupção muito brusca &amp;amp; chocante na excitação. A mulher, além dos motivos aqui já excitados não quer que o homem note sua conivência para que ela não passe por fácil, por puta, por vagabunda, vadia, piranha, arrombada. Por mais incrível que pareça esses tarados malucos podem ser muito moralistas, no final... &amp;amp; ela não quer ser difamada nem mesmo no pensamento mais breve de um ninfomaníaco pervertido. Então ela disfarça, se esforça para que pareça que está distraída e que é apenas por isso, por distração, que ela o permite seguir com o ato. Em outras palavras: &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;ela finge o coma para receber o pau do tarado&lt;/span&gt;. Ela também quer é gozar; e continuar protegendo a sua re&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;puta&lt;/i&gt;ção duvidosa. E nesse jogo sexual em que se encontram duas perversões desavisadas uma da outra um casal de desconhecidos goza &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;ao mesmo tempo &lt;/i&gt;sem nem desconfiarem de sua sincronicidade. Momento muito mágico, totalmente cinematográfico, nada literário &amp;amp; não me perguntem por quê. Tudo está acontecendo, de fato, reciprocamente, mas pelo desconhecimento de ambos um do outro, em seus mundos particulares nada sai do âmbito da fantasia e do fetiche. Eles acabaram de trair seus cônjuges mas não possuem consciência disso pois nada pareceu ir além da masturbação e assim não há a menor nem a maior culpa: o ato acaba, termina, chega ao fim, quando a máquina feminina do metrô anuncia com sua voz suave &amp;amp; eletrônica a estação que o homem deseja. Ele sai do vagão com as calças levemente molhadas, a cueca quentinha, como se houvesse acordado de um sonho erótico e subitamente se deparado com uma realidade totalmente distinta daquela outra, tão recente e excitante. Os assuntos de responsabilidade voltam a existir e a ocupar a sua cabeça, ele volta a ter o trabalho no centro do pensamento, volta a se comportar como um homem de negócios, um homem que nega o ócio, instantaneamente apagando da mente o fato de que há apenas alguns segundos atrás se comportava como um adolescente ninfomaníaco punheteiro. Sexo, agora, já não é mais a maior causa de suas ansiedades. Mas isso dura muito pouco. A mulher fica no metrô e no seu caso o sonho se dissipa muito aos poucos, ou pouco aos muitos, mas ela logo deita o olhar ao redor à procura de outro devaneio erótico, como um passatempo automático para esta enfadonha viagem em direção ao trabalho. O mundo, a rua, a vida, notem bem, exalam tensão sexual 24 horas por dia, 07 dias por semana, 365 dias por ano (366 nos bissextos), 10 anos por década, e talvez alguns segundos a mais. Talvez a vida humana acabe e somente perdure, somente transcenda, a energia sexual. O cheiro dos paus, das bocetas e dos cus. Todos os suores, todos os sabonetes cremosos lavando lá embaixo com água &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;splash splash splash&lt;/i&gt;, todas as cuecas e calcinhas ansiosas e marcadas, todas as relações sexuais sem banho depois, toda a quantidade de esperma que seca nos lençóis dos motéis, todas as camisinhas usadas e o cheiro velho delas. O cheiro do sebo, do corrimento e da menstruação, dos lubrificantes naturais e artificiais, todos os calores e os cheiros dos paus, das bocetas e dos cus. Talvez somente estes cheiros ainda acompanharão o cheiro da maresia quando, após o apocalipse, as solitárias batidas das ondas do mar ainda insistirem nas praias totalmente desertas de vida humana. Recente pesquisa mostrou que 97% das mulheres pensa na ereção de um pênis esfolado quando faz subir o batom giratório &amp;amp; em boquete quando o passa na boca. Mesmo aqueles outros que cochichavam com fervor boca na orelha feito sexo oral quando os dois amigos &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;meio &lt;/i&gt;suspeitos &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;meio &lt;/i&gt;não-suspeitos passavam juntos, mesmo aqueles outros eram também &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;meio&lt;/i&gt; suspeitos, encostando suavemente a mão na lateral da face do outro, os pequenos pêlinhos do dorso da mão gradativamente se arrepiando ao lado da orelha do outro que já se prepara para receber voz suave e hálito quente no ouvido já antecipando o perigoso risco de sofrer um inesperado arrepio por toda a extensão do cangote &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ui. Nesse caso o que acontece é mais ou menos como uma preliminar, e acontece sem que ao menos as pessoas tenham certeza de que se traça quer dizer de que se trata de uma anunciação sexual e não de um mero cochicho fofoqueiro. E quando esse suposto cochicho fofoqueiro se dá entre pessoas do mesmo sexo, fodeu. Quer dizer, dá medo; medo de foder.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Putz, um dia ela veio me contar um segredo no ouvido e eu me arrepiei toda. Outro dia aconteceu a mesma coisa quando ela botou a mão no meu ombro roçando minha nuca suavemente com os dedos. Será que esses arrepios significam tesão, doutor, atração sexual? Será que sou lésbica?! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Anotem aí: quando você se arrepia com alguma coisa, ou você gosta muito dela ou você morre de medo&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt; &lt;/i&gt;dela; &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;morre de medo de gostar muito&lt;/i&gt; dela. Das duas, uma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Ai, é porque minha calcinha chegou a ficar molhada; senti um calor lá embaixo e quando fui ver estava toda ensopada!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Calma, menina. Talvez você tenha apenas &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;se mijado&lt;/i&gt; de medo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Fechando um parêntese: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%;tab-stops:45.0pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Não se esqueçam de que a água e o vinho têm uma forte relação entre si e logo não podem ser considerados &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;opostos&lt;/i&gt; &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; três deles diziam. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Não se lembram daquela célebre passagem bíblica na qual esses dois líquidos estão intimamente associados? Não se lembram? &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; três deles seguiam, com um machado afiado nas mãos elevado ao nível do tampão do crânio dos outros. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Posso refrescar suas mentes, se quiserem. Na verdade, nessa tal passagem, esses dois líquidos estão tão intimamente associados que um chega a se transformar no outro! Como podem ser opostos dois elementos se um se transforma no outro com tanta facilidade? Elementos opostos seriam aqueles que quando inseridos num mesmo recipiente, por exemplo, ou por qualquer outra coisa que não seja exemplo, rejeitariam um ao outro, formando duas camadas, uma em cima, outra embaixo, sem se comunicarem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Mas os opostos se atraem! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; gritavam cinco deles. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Homem e mulher, por exemplo, são opostos, e se atraem! Quando colocados num mesmo recipiente, por exemplo uma cama, ou um carro, ou um elevador, eles não se fundem num só corpo mas também não se rejeitam. Muito pelo contrário!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Decerto, eles não se fundem; eles se fodem. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; interrompiam quatro deles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Deixem-me concluir, por favor &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; pediam cinco deles com impaciência. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Homem e mulher numa cama realmente formam duas camadas, uma por cima outra por baixo, mas essa posição pode variar! Vocês três estavam &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;quase&lt;/i&gt; certos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Não é exatamente assim. Equivocam-se, vocês cinco &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; interpelavam seis deles. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Nesse sentido a relação sexual entre homem e mulher é como o yin-yang. Não são de modo algum como dois líquidos que não se misturam num recipiente. Eles se fundem, sim, parcialmente. O homem entra na mulher com seu pênis...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt;line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; E a mulher entra no homem com a sua vagina, por um acaso? &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; interrompiam sete deles, em tom de refutação. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Não, obviamente não, e isso desfaz toda a sua teoria a respeito do yin-yang sexual. Mas não desanimem, vocês seis, pois não estavam de todo errados. Tenho uma nova teoria que combina alguns pedaços de suas teorias errôneas com algumas novidades, e assim eu espero poder salvar-nos do erro dessa vez. Ela começa com a mesma frase que um de vocês usou há pouco: os opostos se atraem. De acordo com a teoria que formulo, os opostos se atraem porque um dos lados está sempre buscando incorporar o outro, o lado oposto, o outro extremo, para se completar, mesmo que isso a rigor seja absolutamente impossível. A cara está sempre sendo atraída pela coroa e vice-versa, pois elas são dois lados de uma mesma moeda e quando estão separadas não formam moeda alguma. Então o que eu sugiro é o seguinte, que o homem, no fundo, está procurando o seu lado oposto, isto é, a mulher, a vagina... Mas o homem busca a vagina não apenas desejando tê-la, fora de si, como um objeto externo que ele fode ou não, e sim, ao mesmo tempo, desejando &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;sê-la&lt;/i&gt;. O homem, no fundo, quer ter uma vagina em seu próprio corpo, ele quer ser mulher. Mas obviamente ele não pensa nisso de modo consciente, racional, pois tal pensamento seria tão doloroso que poderia levar alguns de nós, homens, ao suicídio, assim como levou aqueles três rapazes ali atrás, no fundo do auditório, que acabaram de se enforcar... Enfim... Encontramos alguns sinais disso nas próprias palavras que se usam, às vezes, entre casais na intimidade: a mulher pede para ser possuída, o homem diz que deseja possuir sua mulher. Notem bem a palavra possuir. O homem quer &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;possuir&lt;/i&gt; a vagina de sua mulher; em outras palavras, ele quer &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;tê-la&lt;/i&gt;. Esse desejo é um desejo latente, que lateja e causa muita angústia no homem, mas que mesmo assim insiste, porque ser &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;somente&lt;/i&gt; homem é uma limitação muito grave, e todo ser humano se sente oprimido ao pensar nisso, ao perceber os seus limites, ao constatar a sua impossibilidade de apreender o mundo em toda a sua amplitude: ou seja, as sensações de mulher, isto é, aquelas que são sentidas objetivamente entre as pernas, um homem não pode ter, e vice-versa. Logo, o ser humano, ao se constituir como qualquer coisa única, ao se autolimitar num processo de individuação, fica reprimido, limitado, se distancia de um mundo maravilhoso onde tudo é possível&lt;/span&gt;&lt;span&gt; – &lt;/span&gt;&lt;span&gt;eles tossem violentamente &amp;amp; cospem no chão uma bola de pêlos com sangue, antes de continuarem. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; A mulher, por sua vez, deseja ter um pênis. Quer ser homem, quer deixar de ser mulher, pelo mesmo motivo que o homem quer deixar de ser homem, em seus desejos inconscientes. No ato sexual é justamente onde o homem, o macho, se entrega à ambigüidade, ou mais precisamente à ambigüidade sexual, que tanto o machuca no dia-a-dia frio. E sem perceber é esta mesma ambigüidade que o excita, que o faz ter, primeiramente, uma ereção. Porque ao inserir o pênis na vagina da mulher, seu pênis some, desaparece, se esconde, basta lembrarmos daquela expressão usada em certas línguas estrangeiras ‘esconder o salame’. É como se o homem perdesse seu pênis temporariamente, como se o estivesse perdendo, tornando-se igual à mulher que está à sua frente, lisa. Isso gera muito prazer, mas ao mesmo tempo gera igual tensão, pois se tornar mulher significaria deixar de ser homem, e não é isso o que ele quer exatamente: ser &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;apenas&lt;/i&gt; mulher constituiria uma limitação tão enorme quanto àquela, primeira, que gerava sua angústia sexual original. Mas ele logo retira a piroca ensopada lá de dentro e vê que ainda a possui, e isso gera um grande alívio, mas logo também retorna a tensão original, e ele quer perdê-la novamente. É como um jogo de criança, um piquesconde safado, um morto-vivo pervertido. É esse jogo mórbido e vívido ao mesmo tempo entre a tensão e o alívio, dentro e fora, respectivamente, o que constitui o prazer do ato sexual para o homem. E para a mulher exatamente a mesma coisa acontece, só que na ordem inversa. A tensão quando o homem retira o pênis. Ou melhor, quando o homem está saindo, ou entrando, ainda visível, ainda caminhando para dentro, ou caminhando para fora, semi-encaixado. A mulher, com um pênis encaixado em si, acredita ter ganhado um falo, como numa espécie de adaptador sexual, e isso gera a sua tensão, como eu havia dito anteriormente. E seu alívio, que é também o retorno da tensão original, ocorre quando o homem penetra totalmente ou retira de vez o seu pênis e volta a existir a superfície lisa, entre aspas, da boceta. O dentro-e-fora é uma oscilação constante entre tudo e nada, tudo e nada, pênis e vagina, pênis e vagina, homem e mulher, homem e mulher, morto e vivo. E vejam bem, a tensão de que falei nunca deve ser confundida com medo. É apenas uma tensão, mesmo, um conflito, uma dor prazerosa, nem mais nem menos que isso, pois o homem no cerne do seu desejo sexual inconsciente quer mesmo perder o pênis; só que ele não que perdê-lo irreversivelmente, senão isso também constituiria por outro lado, como eu já disse, uma limitação grave. Se o que ele sente é medo, é também desejo. Então, a partir disso, deduzi que o que os seres humanos estão buscando é este momento excitante em que os opostos co-existem incessantemente, alternando-se em alta velocidade, não precisando eclipsar um ao outro para entrarem &lt;st1:personname productid="em vigor. O" st="on"&gt;em vigor. O&lt;/st1:personname&gt; maior gozo é a afirmação de um paradoxo. O sexo é isso: sou homem, não sou homem, sou mulher, não sou mulher, sou homem &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;e&lt;/i&gt; mulher, sou mulher &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;e&lt;/i&gt; homem, tenho pênis não tenho pênis, tenho pênis tenho vagina tenho pênis tenho vagina, só assim serei feliz, tendo pênis tendo vagina, meu Deus, quero fazer isso, quero viver assim para sempre! Já perceberam como é bom foder, meus caros companheiros de academia? Já perceberam como a sensação de prazer, muito intensa, que uma boa foda nos dá, muitas vezes nos leva a esse sentimento de querer morrer disso, ‘morrer’ sempre representando o auge, o clímax total aparentemente inatingível, a satisfação completa? Claro. Porque é na morte, apenas na morte, que todas as tensões se aliviam; e a vida volta, escoando, para o lugar de onde ela veio: o nada, o vazio, a escuridão do não-ser, a eternidade. Basta lembrarmos que em algumas línguas estrangeiras a palavra ‘morrer’ é utilizada como um eufemismo para a palavra ‘gozar’ ou ‘ejacular’. Claro. E também se fala muito em Deus, nestes momentos sexuais de maior prazer. Ai meu Deus, ai meu Deus. Deus é o que, para quem acredita nele? O nosso criador! Nesse momento terrivelmente excitante em que perdemos nossa identidade original e afirmamos um paradoxo, é natural que o evoquemos, como se ele pudesse nos restituir o corpo e a mente, enfim, a subjetividade que se despedaça nesse clímax quase insuportável em que experimentamos o maior prazer da vida e ao mesmo tempo a maior dor. Como já dizia o poeta, mesmo o gozo mais gostoso marca o início do fim do prazer. O auge da relação sexual é também o seu fim. No leito de morte, um homem chama pelos seus pais. Como se eles, seus criadores, pudessem novamente restituir suas energias, recuperá-lo. É o mesmo mecanismo psicológico operante nos rituais religiosos executados no interior de cavernas, celebrando a fertilidade feminina, a entrada na caverna simbolizando um retorno ao útero materno e uma revitalização dos corpos. Algo realmente idiota. No sexo é onde mergulhamos no lugar de onde viemos, o nada, a não-vida, para irromper novamente na superfície, a todo instante, indo e voltando, como num flerte perigoso e excitante com a morte, com a perda do pênis, com a perda da vagina, a perda da essência, da identidade. No sexo, somos a Alice no País das Maravilhas e gostamos disso, gozamos com isso. Muitas pessoas já me relataram que sentem uma forte repulsa pelo sexo no mesmo instante em que acabam de gozar. Isso acontece porque quando gozamos, quando terminamos de gozar, somos inseridos novamente na nossa realidade sexual aparentemente unilateral: o homem tem de lidar novamente com o seu pênis e a mulher com a sua vagina. Precisamos, novamente, encarar o nosso &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;handicap &lt;/i&gt;primevo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Aplausos escandalosos na academia. Algo realmente idiota. NOTA: Estamos encomendando alguns homens armados para matarem todos esses imbecis da academia: que eles discutam pra sempre. O que ninguém imaginava era que aquele forte laço de amizade que havia entre os dois rapazes do sexo masculino se dava porque no que dizia respeito à questão “opção sexual” ambos pensavam de maneira muito similar. NOTA: A expressão &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;sexo masculino&lt;/span&gt; pode evocar a imagem de dois homens transando. Ambos eram da opinião de que para saberem se gostavam de mulheres ou de homens, para terem certeza de seu gosto e se decidirem definitivamente podendo seguir a vida em paz seguros quanto a sua opção sexual, precisavam experimentar dos dois para só depois concluírem. Só dessa maneira seria possível ter certeza. Exatamente como faz um consumidor cobaia de experimentos com novos produtos em supermercados que prova dois iogurtes de sabores diferentes e depois coloca o dedinho no queixo e vira os olhos para cima com expressão de dúvida para fazer a escolha, pesando na balança mental do gosto para decidir qual dos dois deu mais prazer ao seu paladar, mais paladar ao seu prazer, em qual dos dois seria preferível morrer afogado. “Hmmmm. Morro com o de pêssego!” Parece absurdo, mas uma recente pesquisa revelou que é imenso o número de pessoas que acha que um belo dia você precisa &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;parar&lt;/i&gt; para escolher, daquela mesma maneira do supermercado, do que você gosta sexualmente; e não somente você, mas todos nós, como se a sexualidade fosse friamente determinada numa espécie de prova mental de múltipla escolha:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;( a ) mulheres;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;( b ) homens;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;( c ) animais;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;( d ) crianças;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;( e ) todas as respostas acima.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;É uma ideia estreitamente relacionada a uma outra, que vem da infância, aliás que vem dos adultos, quando forçam a criança a comer algo que não a agrada nenhum pouco visualmente e que, ao contrário, a causa nojo e repulsa, dizendo a ela que não é possível alegar que não se gosta de algo que ainda nem se provou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Ah é?! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; gritou o nosso protagonista desconhecido para o seu pai.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Então vamos lá, papai: você por um acaso gosta de dar o cu? &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; O pai, machão que era, ficou puto da vida com a pergunta e respondeu quase sem hesitar: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Claro que não, meu chapa!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Mas você já deu pra saber? &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ralou-lhe o cu o filho; quer dizer, encurralou-lhe o filho. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt;line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Há muita gente que pensa essas coisas; mais do que se pensa. Onde já se viu alguém &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;parar &lt;/i&gt;para escolher do que gosta sexualmente? Disse o doutor: a sexualidade não é algo que se escolhe &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; não existe &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;opção sexual&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; e mesmo se assim fosse, meu filho, esta escolha seria feita em movimento, e nunca com o corpo ou o pensamento parados. Então nosso protagonista desconhecido, cobaia dos experimentos do Diabo, enche o carrinho de iogurte de pêssego e vai para casa feliz &amp;amp; seguro &amp;amp; tranqüilo &amp;amp; satisfeito quanto a sua escolha sexual, aliás pare ele iogurte tem muito a ver com sexo. Aliás, tudo nesse mundo ou em qualquer outro mundo teria a ver, a ouvir, a sentir &amp;amp; a cheirar com sexo. Desenvolvendo um pouco mais a analogia supermercado-sexualidade é como se um homossexual recém-decidido, recém-saído do armário, saísse de manhã da casa (cama) de alguém do mesmo sexo e encontrasse na porta no lugar da guirlanda de Natal com a cara do Papai Noel um cartaz dizendo: “Agradecemos a preferência. Volte sempre!”. Então como lidavam da mesma maneira com aquela questão tão importante para a vida de um adolescente do &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;sexo masculino&lt;/span&gt; aquela dupla de amigos ávidos por segurança sexual fartos da inevitável dúvida, resolveram (...) transar entre si (!!!) para que tudo se esclarecesse de uma vez por todas. É preciso provar; é preciso provar um homem para provar (aos outros e a si mesmo) que se é homem, com 100% de certeza. Para as mulheres, é a mesma coisa. A não ser que se desista da certeza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Mas por que vocês dizem que a dúvida é &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;inevitável&lt;/i&gt;? &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; alguém perguntou para os dois adolescentes protagonistas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="text-indent:35.45pt;line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;É uma longa história, mas pode-se responder: (...) o mais velho desses dois amigos se chamava K. (o mais novo se chamava Y.) e o pobre K., no passado, já sofrera de um problema parecido, porém em outro âmbito da vida: a linguagem. Como qualquer outro ser humano um belo dia K. nasceu. Para falar a verdade, não era um belo dia: chovia muito, o céu estava repleto de nuvens negras e havia muitos ratos nas ruas (...) e como toda criança recém-nascida K. ainda não sabia falar. As pessoas ao redor, aqueles babões (pareciam babar mais do que ele) já sabiam falar; já tinham nascido há algum tempo e falavam muito, talvez até demais. K. ouvia, ouvia, só ouvia e aos poucos começava a compreender o que as palavras queriam dizer (ou o que as pessoas queriam dizer com as palavras?) associando-as aos objetos do mundo. Dessa maneira as palavras foram cada vez mais se aproximando dos objetos os quais primeiramente elas denominavam para em seguida se tornarem os próprios objetos, ao mesmo tempo em que os objetos se tornavam as palavras que os denominavam (e que em seguida os dominavam). Palavras-objeto, objetos-palavra, nenhuma diferença, até atingirem um ponto de indistinção. As pessoas ao redor aparentemente &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;viviam &lt;/i&gt;falando e mais tarde K. concluiu que na realidade era isso mesmo: elas falavam a vida e viviam a fala, nada muito além disso, sem perceberem a realidade das palavras; K., percebendo a realidade das palavras, tentaria ir além disso. Mas como naquela época ele mesmo ainda não falava, apenas chorava, os outros acabavam falando, inclusive, &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;por ele&lt;/i&gt;. Enfiavam palavras à força na sua boca, ainda muito desdentada e despreparada para sequer cogitar se defender ou cuspir aquelas sentenças nojentas para fora de si. Algumas pessoas, principalmente a sua mãe, falavam &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;muito&lt;/i&gt;; demais, muito demais, pelos cotovelos, pelo cu, pelos poros, e não resistiam quando viam uma boquinha calada pronta para ser receptáculo passivo do seu vocabulário impositivo. Às vezes, por exemplo, acontecia dele chorar escandalosamente querendo comida, o estômago latejando de dor de tão vazio que estava, e sua mãe, ao chegar ao berço para ver o que estava acontecendo, não hesitava antes de afirmar com convicção: “Oh, olha que lindinho o meu filhinho! &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;Tá com soninho!&lt;/span&gt;”. Mas ele não estava com soninho porra nenhuma. Ele estava com fominha e ficava puto da vida com o erro daquelas pessoas da sua família, tão estúpidas. Erro que acabava virando verdade absoluta da situação, já que ele ainda não era capaz de falar para expor e fazer valer a sua verdadeira vontade. Ele pensava, à sua maneira: “Nã to sonin porra niuma. Quero comida, ô porra! Seus filho de puta nojenta!”. Mas de que adiantava pensar? O pensamento só era ouvido por ele... &amp;amp; por conta disso, o que sua mãe fazia em seguida não era dar comida a ele; (...) ela o pegava no colo e cantarolava uma infinidade de canções de ninar, uma mais enfadonha do que a outra, pois não eram canções feitas de trigo, quentinhas, recém-saídas do forno diretamente para a sua boca &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; e o ouvido não tinha qualquer ligação com o estômago; ele chegou a tentar, mas infelizmente não era possível comer som; e como não adiantava de nada ouvir sua mãe cantar (não mataria nunca a sua fome) ele chorava ainda mais alto, escancarava ainda mais o seu berreiro, esperneava violentamente fazia um grande escândalo. Buáááááááááááá! Buááááááááááááááá! Em vão; sua mãe, então, iniciava uma história, outra tentativa de fazer o menino dormir. A história mais freqüente nessas situações era a dos &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;três porquinhos&lt;/span&gt;, porque todos acreditavam ser esta a mais eficaz para acalmar o menino chorão. E não era de todo mentira: porém isso só acontecia porque K. entretinha o seu estômago ao imaginar os três pequenos suínos assados numa enorme travessa, cada um com uma maçã enfiada na boca, batatas gordas cozidas ao redor do corpo, a carne macia e corada, a pele tostada... Mentalmente K. tentava fazer um pacto com o Lobo Mau: torceria por ele, contanto que depois ele concordasse em compartilhar o bacon. Em momentos de fome como estes a mente de K. literalmente se deslocava para o estômago e era lá, no estômago, que seus pensamentos passavam a ressoar e a ecoar, e ele sentia sua cabeça ficar tão vazia e descontrolada quanto sua barriga. E nem todas as imagens apetitosas que povoavam sua mente conseguiam enganar sua fome, tão esperta, que roncava raivosa feito um monstro mitológico insaciável no interior do seu estômago. Entretanto &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; prestem atenção! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; de tanto que sua mãe o balançava K. acabava por ficar tonto, muito tonto, e não demorava a dormir... totalmente grogue... chacoalhado, &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;puft!&lt;/i&gt; &amp;amp; não se esqueçam vocês de que inicialmente ele tinha &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;fome (&lt;/span&gt;e não &lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;sono) &lt;/span&gt;mas mesmo assim &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;dormiu&lt;/span&gt; (e não &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;comeu)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; confirmando a falsa suspeita da mãe; fez valer a vontade da mãe, apenas porque não falava. Só quem tem boca, só quem tem fala pode reinar nesse mundo; nem todos os escravos são mudos, mas todos os mudos são escravos; e os escravos que falam, quando se rebelam, têm imediatamente suas línguas decepadas. Como dizia o ditado: quem tem boca vai a Roma. Como dizia K.: e quem não tem, vai pra puta que o pariu. A verdade, pensava K., é um privilégio daqueles que verbalizam. Mal sabia ele que muitos estudiosos andavam dizendo o contrário. Porém, como era de se esperar, essa condição de K. não durou para sempre. Assim como todos nós seres humanos um belo dia K. começou a falar, e dessa vez foi mesmo um belo dia, com um enorme e brilhante sol sorrindo e raiando amarelo no límpido céu azul de nuvens brancas feito algodão. Mas como sua experiência pré-linguagem não tinha sido das melhores, na verdade muito traumática, a linguagem começou a ser para ele motivo de extrema tensão e ansiedade, precisamente por ser o maior meio de libertá-lo de suas inseguranças e medos mais primários &amp;amp; também da repressão que antes sofria: pois ele temia perder, da noite para o dia, por qualquer castigo divino inexplicável, a capacidade de falar. A linguagem passou a estar para ele sempre por um fio, na corda bamba da dúvida; acabava sendo &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;demais&lt;/i&gt; para ele &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; no mau sentido &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ele que com as muitas palavras de sua língua se sentia mais ou menos como um malabarista que precisava jogar com 500.000 laranjas &amp;amp; que se perdesse o controle e as deixasse cair ficaria soterrado &amp;amp; à mercê dos tomates dos outros. Ao mesmo tempo, ele sentia que ninguém lidava melhor do que ele com as palavras em sua essência, ou melhor, em sua falta de essência; ele compreendia que era inseguro, mas também percebia que as próprias palavras eram inseguras por natureza, posto que sem qualquer natureza, para ele sempre deslizantes com seus múltiplos sentidos nunca fixos, sempre fixados; e dessa forma ele e a linguagem eram como unha e carne, ambos tremendo, paradoxalmente harmônicos através do próprio caos que compartilhavam. Isso obviamente não garantia a ele nenhuma segurança, mas apenas uma insegurança controlada, posto que inevitável (cá estamos); K. pensava que qualquer segurança nessa vida só era alcançada através de grandes ilusões, ilusões nas quais sua mente delirante sempre se recusara a acreditar. É tudo mentira. Só os loucos sabem a verdade, a verdade da mentira; para K., ser são é a mesma coisa que ser alienado, passar por um forçado processo de auto-alienação que leva à paz da saúde mental; &amp;amp; não se trata de uma apologia à loucura da parte de K., pois ele sabe que essa verdade de que sabem os loucos causa muita dor, ou pelo menos alguma dor. O problema é que K. já havia visto, mais cedo, como uma topada forte com um dedo no meio-fio podia fazer uma unha se descolar de uma carne e cair; unha podre, carne vulnerável. Se ele perdesse a linguagem, se a deixasse cair, estaria novamente exposto à palavra dos outros, seria novamente o boneco de sua mãe ventríloqua. Perder a linguagem era equivalente a perder a si mesmo. E mesmo que compreendesse bem a origem desse temor, K. não conseguia de modo algum eliminá-lo; ele recordava que quando criança (na época em que não podia falar e por isso dormia com fome e comia com sono etc.) não tinha e &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;não tinha como&lt;/i&gt; ter certeza de que um dia viria a falar. O advento da linguagem numa criança pode parecer algo de muito natural e óbvio aos olhos de um adulto, mas para a própria criança não o é nem um pouco. A criança, mergulhada na experiência, sente iniciar uma angústia pesada, ensaia os primeiros gu-gus da-das, sons a-significantes, mas daí ao advento da linguagem o que se dá é uma verdadeira batalha, uma longa guerra permeada por intensas inseguranças. Para K., pelo menos, assim foi. Quando criança, ele não sabe se conseguiria, pois ele ainda não &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;sabia &lt;/i&gt;de nada. Para &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;saber&lt;/i&gt; &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;racionalmente &lt;/i&gt;qualquer coisa, já seria preciso falar, ou ao menos ter o pensamento estruturado com a linguagem verbal. É um exagero dizer que os homens pensam somente com a cabeça de baixo; pois nos intervalos (e nas preliminares) eles pensam também com os dedos, e com a língua. Por ter esse pensamento (de que a linguagem não é um evento natural, mas um advento cultural) é que K. mais tarde tanto temia perder a capacidade de falar. Sabia, através de rumores e filmes, que algumas pessoas perdiam a voz quando passavam por experiências muito traumáticas, e isso fez com que ele iniciasse sobre si mesmo um intenso autocontrole, evitando se expor a situações de forte carga emocional. Vez ou outra ele conseguia relaxar um pouco, ao notar que foi também uma experiência traumática o que primeiramente o levou a falar, a desenvolver em si mesmo a linguagem. Só que agora, sentia extrema urgência em dominar totalmente a linguagem, ter certeza absoluta da linguagem, quando ele mesmo percebia que tudo na linguagem é dúvida. Falar não é nada de essencial, pensava K.; ao contrário, algo que é aprendido e que por isso mesmo pode ser perdido, esquecido, tomado à força. Algo de histórico, e logo fundamentalmente incerto. É uma das tragédias da humanidade (nossa como está chata essa parte) não se pode ter certeza de absolutamente nada, nem do &lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;nada&lt;/span&gt; nós podemos estar efetivamente certos. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Para completar K. sentia que somente falando (no gerúndio) era possível sobreviver; atacar e se defender. Se você não fala, falar, falando, em poucos segundos você é atropelado pela língua dos outros que falam, você é violentado estuprado violentamente pelas más línguas, você recebe verdadeiras linguadas. Se você não pode dizer &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;tá bom&lt;/span&gt; ou &lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;tá ruim&lt;/span&gt; você vai apenas gemer &amp;amp; os gemidos são vazios de sentido; nós que falamos e fodemos encaixamos nos gemidos dos outros o sentido que quisermos, o sentido que acharmos melhor. “Quem fala fode, quem não fala é fodido” era esse o preceito básico do pensamento de K., se você não fala os outros falam para ou por você ignorando a sua vontade enfiando palavras na sua boca à força como um espírito ruim que entra no seu corpo possui seu corpo e fala com a sua boca coisas com as quais você não concorda coisas que você não ousaria deixar escapar pela barreira dos dentes &amp;amp; em pouco tempo você fica conhecido pelo que o espírito é &amp;amp; pelo que o espírito pensa &amp;amp; não pelo que você realmente é e pensa, pois para os outros este realmente não existe, ele fica limitado a um lugar frágil e vulnerável do seu cérebro passivo sem palavras espontâneas para através das quais ser mediado. Sem a capacidade de falar, sem as palavras, você perde o pouco de essência que ainda tinha através de algumas ilusões, o pouco de identidade que ainda tinha através de algumas ilusões restantes sendo apenas o porta-voz do primeiro demônio que resolver se aproveitar e se apossar do seu corpo vago, um demônio que tem por essência tudo o que é oposto a você. Interferências. Índios, bruxaria. Era-uma-vez. Tédio, pular páginas. Foda-se. Outra dúvida um tanto trágica não largou o pensamento de K. quando ele fez aquele glorioso e ao mesmo tempo doloroso movimento do silêncio à fala: e quando eu não estou falando, n, d, o, no gerúndio, o que me acontece? O que poderá me acontecer? Não será perigoso? Acaso ninguém se aproveitará do meu silêncio para possuir minha língua, enfiar palavras de carne na minha boca por coerção? Formular por eles mesmos os meus pensamentos? Modular de acordo com as suas vontades a minha identidade? Pois se alguém me vê em silêncio como este alguém poderá saber se eu falo ou não, se eu tenho ou não a capacidade de falar e, conseqüentemente, de atacar e me defender? K. sabia que falar de boca cheia era má educação. Enquanto estava comendo, portanto, não podia falar &amp;amp; isso era motivo para tensão de 150 milhões de Volts na cabeça do coitado, eletrizando todo o seu corpo tenso, energia quase fatal correndo através de seus fios verdes e quase o matando. Ser mudo, para ele, seria o equivalente à morte; na verdade, ser mudo seria muito pior do que a morte, pois seria o equivalente exato a morrer &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;estando vivo&lt;/i&gt;. Morto-vivo, vivo-morto. Como eu mesmo posso ter a segurança de que &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;falo &lt;/i&gt;quando estou em silêncio; quando não estou falando, n, d, o? Como eu mesmo posso ter a segurança de que &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;gosto &lt;/i&gt;de mulheres quando estou inativo, sem beijar ou comer uma mulher, sem olhar nem desejar foder uma mulher? Sem estar gostando, n, d, o, de uma mulher, no exato momento? K. sentia muito medo de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;não ser&lt;/i&gt;, de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;deixar de ser&lt;/i&gt; tudo o que era; mas ao mesmo tempo, seu medo era também o medo de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt;... Pavor de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt;. Pavor de acabar &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Sendo&lt;/i&gt; jogador de videogame, por exemplo, enquanto estava jogando, n, d, o, videogame, e perder todas as outras coisas que o constituíam enquanto K., enquanto ele mesmo. Medo de se concentrar tanto numa coisa e acabar &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Sendo&lt;/i&gt; esta coisa, &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;apenas&lt;/i&gt;, nunca mais conseguindo sair desta coisa, fechando-se aí... O &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt; e a catatonia, lado a lado; o &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt; e as trevas; o &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt; e o &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Não-Ser&lt;/i&gt; &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; delirou K., sem ter estudado qualquer filosofia &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; são praticamente a mesma coisa. O &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser&lt;/i&gt; é a morte. Daí, também, sua grande dúvida sexual: como &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;ser&lt;/i&gt; homem, sem dúvida alguma, sem &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Ser&lt;/i&gt; homem o tempo inteiro &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; sem deixar passar um só segundo sem ser homem &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; sem praticar 100% do tempo o gosto por mulheres? Deixar esse gosto dormir, em algum momento. Ser homem, absolutamente homem, isto é, gostar de mulher, ser = gostar, necessariamente o impediria de ser qualquer outra coisa. Pois se ele fosse, ao mesmo tempo, qualquer outra coisa além de homem, além do sujeito de um gosto sexual por mulheres, sua masculinidade não seria absoluta, seria frequentemente posta em dúvida, longe da tão desejada porta da certeza. Por isso, em sua realidade psíquica, K. só conseguia ser homem, por exemplo, sendo &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;outra coisa&lt;/i&gt; que não homem; entrecortado por alguma outra coisa que ele também era &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; como por exemplo jogador de videogame ou leitor de romances policiais &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; ou então pela ameaça de vir a ser algo que ele não era e não gostaria de ser; desse modo K. nunca conseguia andar andando, comer comendo, jogar futebol jogando futebol, ser homem sendo homem; só conseguia comer atravessado pela ameaça de deixar de falar; só conseguia jogar futebol atravessado pela ameaça de deixar de ser homem; concentrava-se arduamente para não perder a masculinidade e, assim, a bola rolava com ele distraído, investindo energias em outro lugar; ele só conseguia ser homem, imediatamente, entrecortado pela ameaça de não ser homem, investindo energias em outro lugar; porém, contraditoriamente, essa ameaça representava tanto o medo de &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;não ser &lt;/i&gt;ou &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;deixar de ser &lt;/i&gt;homem, quanto uma garantia de não &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Ser &lt;/i&gt;homem (apenas homem, nada mais) e acabar impedido de ser qualquer outra coisa que ele era e gostava de ser... K. começaria a ser torturado por todas as palavras existentes no dicionário pois eram todas elas vazias e flutuantes nenhuma delas era natural &amp;amp; não sendo a dor forte o suficiente as palavras começariam a se unir para formarem um exército lingüístico contra K. começando a gerar novas palavras vivas com texturas cores cheiros e formas e principalmente deformas &amp;amp; palavras que se fundem e o fodem. K. perderia sua identidade inexistente, sua ilusão de identidade, que ficaria oscilando velozmente entre magra &amp;amp; gorda, &amp;amp; magrorda, alta &amp;amp; baixa, &amp;amp; altaixa, estreita &amp;amp; longa, &amp;amp; estreitonga, grande &amp;amp; pequena, &amp;amp; grandena, &amp;amp; gangrena, bonita &amp;amp; feia, &amp;amp; boniteia, K. seria tudo ao mesmo tempo &amp;amp; ao mesmo tempo não Seria nada. Muito bom. Se fosse medroso(a), K. chegaria à covarde conclusão de que seria bem melhor se alienar na linguagem (na naturalização da linguagem) de uma vez por todas e não mais ficar nessa corda bamba como ficava o nosso protagonista desconhecido, mas K. era macho, muito macho, e macho não pode ser medroso, macho enfrenta tudo – nosso querido amigo K., amigo de Y., o famoso casal, quer dizer dupla, quer dizer par, de seres humanos do sexo masculino. K. no fundo sabe que seria muito melhor deixar-se tombar definitivamente na limitação da individuação, esquecer o que não é, deixar as coisas boiando na insegurança, sem buscar a segurança total, que é onde mora a saúde mental &amp;amp; aquele tipo fundamental de ignorância... Porém K. acha que é preciso acreditar que as coisas são fixas, 100% fixas – com certeza absoluta. Sim, eu &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;sou &lt;/i&gt;isso. Sim, eu &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;gosto &lt;/i&gt;disso. Sim, eu &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;sei &lt;/i&gt;disso. Não há dúvidas quanto a &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;isso&lt;/i&gt;. É preciso acreditar que o fato (fato?) d‘eu ser assim, dessa forma que eu sou, não significa que eu quero ser assim e me esforço para ser assim, mais ou menos como um ator conquista e constrói seus personagens... Ao contrário, para ser são, é preciso acreditar que o fato (fato!) d‘eu ser assim, significa que os deuses me esculpiram dessa forma, que tudo sempre esteve adormecido (esperando para ser desperto) &amp;amp; presente desde sempre no núcleo da minha personalidade, esta “coisa” ilusória chamada essência, alma, etc. Acreditar que eu Sou assim &amp;amp; sempre fui, &amp;amp; sempre Sou, tudo isso faz parte da minha essência, acreditar que existe uma essência: eu não teria como ser de outra forma. K. acredita que as mentes, quando querem paz e segurança, devem estar sempre abertas para o seu próprio fechamento. K., infelizmente, não percebe as muitas dimensões da mente. Acredita que a mente se abre completamente, ou que se fecha completamente. K., dessa forma, não consegue sair do vazio. Não percebe que a mente pode fechar certas janelas, e abrir outras: aliás, que a abertura total de certas janelas depende do fechamento de outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mente insegura não é aquela que não tem certeza de nada: é aquela que busca a certeza de tudo. Uma mente segura não é aquela que tem certeza de tudo: é aquela que não busca a certeza de nada.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Voltando ao que não interessa: como tinham a mesma ideia a desrespeito da indefinição da sexualidade, os amigos K. e Y. resolveram transar entre si, provar um ao outro. Pôr um ao outro à prova. Segurar um no outro, para depois ficarem mais seguros de si. &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Sou&lt;/i&gt; homem ou &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Sou&lt;/i&gt; gay. Seu problema, seu medo, não era exatamente o de ser gay; eles seriam gays com felicidade, se ao menos soubessem com certeza que o eram!; seu grande problema era, na verdade, a irredutível indeterminação; pois enquanto sentiam-se homens, uma possibilidade-gay sempre os atormentava, instalando-se coercitivamente entre eles e a mulher. Afinal, gays existiam; e eles também existiam; algo em comum, a existência, eles compartilhavam com os gays; além disso, gays não São gays e pronto; gays são homens que &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;se tornaram &lt;/i&gt;gays; homens são homens que &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;se tornaram &lt;/i&gt;homens; ou seja gays eram, foram homens &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; possibilidades-homem, ao menos; ou seja também os homens eram, foram possibilidades-gay; então, sendo assim, o que exatamente neles, em sua suposta essência, os impediria cemporcentomente de serem gays, de se tornarem gays? Impossível saber de antemão; era preciso pôr a mão, para conferir qual seria a reação. Meses antes, K. tinha se masturbado pela primeira vez em sua vida. Tinha ouvido numa roda de amigos sobre aquilo que o homem fazia com seu próprio brinquedo, e resolveu tentar a tal da “punheta” naquela mesma noite, enquanto a água quente chovia da ducha sem parar e escorria ralo a baixo. Inicialmente ele estranhou bastante a situação: a água quente, o boxe enfumaçado, o espelho embaçado, a espuma do sabonete e do xampu, tudo idêntico à preparação de um casal para um banho sexual romântico. “Mas”, vocês se perguntam, “que problema ele via nisso?!” O problema, pensava K., era que ele estava sozinho consigo mesmo, no banheiro — e ele era um homem! A previsão de que em breve se tocaria, de que tocaria seu próprio corpo, o corpo de um homem, o fez estremecer, temendo a possibilidade daquela tal de “punheta” ser um ato homossexual.&lt;/span&gt;&lt;span style="color: windowtext; "&gt; Como era um ser (?) linguisticamente inseguro por natureza, K. costumava afirmar, muito a sério, que não era um Homo Sapiens Sapiens. “Homo Sapiens Sapiens porra nenhuma! Eu sou um Hetero Sapiens Sapiens!”. Essa própria fala já indica que K. não tinha tanta certeza assim desse fato; ou, antes disso, que queria muito ter certeza linguística, jornalística desse fato, independente do que o seu corpo dizia. Em sua cabeça insegura, talvez ele fosse mesmo um &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;Homo&lt;/i&gt; Sapiens Sapiens, que &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;no fundo&lt;/span&gt; não aceitava sua própria condição e a negava para si mesmo com a&lt;/span&gt;&lt;span&gt;uto-ilusões. Ele se testava o tempo inteiro. Pois se para ser qualquer coisa era preciso &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;se construir&lt;/i&gt;, como seria possível saber se a relativa autoconsciência de ser homem, em K., não era apenas uma auto-ilusão, que escondia lá no fundo a negra verdade: de que na (negra) verdade ele era um veado, uma bicha louca, enrustida; ansiosa por florescer, por desabrochar e ser enrabada? Enquanto se preparava para a masturbação, K. se perguntava: “Como me sentirei, agora, tocando um homem ao mesmo tempo em que sou tocado por um homem?”. Imaginou-se perguntando a um amigo: “Rogério, você por um acaso, ah, por um acaso você já, ah, hum, bateu punheta (cof)?”. Ao que Rogério furioso responderia: “Como assim, mermão, tá me achando com cara de veado? Só mulher encosta aqui, só fêmea bota a mão aqui, cumpade!” e ao pronunciar as últimas palavras Rogério (contraditoriamente) faria com a mão um gesto agressivo levantando o próprio pinto com saco e tudo, como se o oferecesse ao veado que seu amigo estava mostrando &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Ser&lt;/i&gt;. K. tinha escutado vários amigos dizendo que já tinham feito aquilo e que era muito bom, muito prazeroso, coisa de macho. Bastava pensar numa mulher e começar a ação. Mas ao pensar duas vezes, ou até mesmo três, K. sentia que aquilo poderia ser uma grande armação dos seus amigos, para que depois ele confessasse que o fizera e fosse chamado de mocinha, de boiola, cuzudo, manjador-de-pau, pelo resto de sua vida. Porém, essa suspeita não durou muito tempo, logo amoleceu &amp;amp; K. relaxou, quando percebeu que seus batimentos cardíacos aceleravam de excitação com o clima “quente” do banheiro e resolveu se deixar levar, seguir em frente consigo mesmo &amp;amp; K. pensou numa amiga de sua irmã, uma tremenda gostosa, e tudo parecia pronto. Porém, na hora H de começar a ação, K. se deu conta de que ainda não fazia a menor ideia de como aquilo era executado. O que ele deveria fazer com o próprio sexo? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%;tab-stops:139.95pt"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;                                               &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Era uma vez alguém que tem na mão a faca e o queijo mas nunca cortou nada na vida — assim estava K., no banheiro, com o pau na mão. Então a coisa não parecia para ele tão óbvia quanto pareceria para os punheteiros de longa data. Nosso masturbador de primeira viagem superou a decepção inicial, tomou coragem e resolveu improvisar: já tinha chegado até ali e não queria perder a viagem, a qual já não tivera uma fácil decolagem. A amiga da irmã esperava de quatro impacientemente no chão do boxe, expondo a ele uma vagina convidativa e trêmula enquanto olhava para trás com um sorriso de puta que quer levar, e K. ficava cada vez mais excitado. “Quem dera fosse verdade!” Botou a mão direita no pirú e começou a balançá-lo para cima e para baixo, sem parar, exatamente como se faz quando se acaba de mijar, só que um pouco mais forte. Acreditou ter acertado — porque o pirú de fato endureceu com esses movimentos — e sorriu, se sentindo um pouco mais homem. Mas no fundo (e no fundo) ele sabia que havia algo de errado. Estava bom, mas não tanto quanto tinham dito que era. Longe disso! Então K. desanimou de vez com aquilo tudo e deixou a puta da amiga da irmã de quatro no boxe decepcionada sem ser fodida, pois esperava muito mais da tal “punheta” e àquela altura ainda não sabia o quão equivocado estava no modo de executar o trabalho. Estava receoso de conferir a respeito da técnica correta com um amigo mais experiente, pois acabaria sendo sacaneado. Mas, de qualquer forma, o ambiente sexual por si só já o havia excitado bastante. Valera a pena. Era nesse tipo de ambiente que ele queria viver, com o sangue quente, o coração acelerado, as emoções florescendo e murchando ao longo de todo o seu corpo como flores sexuais sangrando num imenso campo hormonal. Uma súbita saída da enfadonha e rígida, frígida realidade da vida. O mesmo acontecia no quarto de Y., tempo atual &amp;amp; já estavam ambos, tanto K. quanto Y., sem roupa, deitados na cama mas nenhum dos dois tinha a menor ideia de como dois homens transavam entre si. Como um homem transava com uma mulher — além de ser tão óbvio quanto plugar um aparelho na tomada — eles tinham confirmado alugando um vídeo pornô heterossexual. Como não queriam ser tachados de bichas na locadora, não arriscaram outro tipo de filme. Mas ali, no quarto, não queriam perder a viagem e tomaram coragem, resolveram improvisar. Concentraram-se ambos para imaginar como deveria ser, como resolver a questão, a aparente incompatibilidade entre os corpos do &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;sexo masculino&lt;/span&gt;. Infelizmente nenhum dos dois tinha uma vagina e isso constituía um grave problema técnico, um obstáculo a ser superado. Do jeito que eram seus corpos, eles pensaram, seria como tentar ligar os pinos da tomada da TV nos pinos da tomada do DVD, sem envolver os buraquinhos da parede na história, os fornecedores da energia. Alguém deveria abdicar, então, do papel de macho! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; foi a brilhante conclusão a que chegaram, e fornecer a energia ao outro com o seu buraquinho. Resolveram, por fim, tirar no pau, que dizer no par, ou ímpar — quem ganhasse seria o homem, quem perdesse a mulher. K. pediu par, Y. pediu impar &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;dó, lá, si, já!&lt;/span&gt; A soma dos números deu par: K. seria o ativo, Y. o passivo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Deus sabia que eles não eram de fato homossexuais. Não realmente. Porém, o problema era que eles não acreditavam em Deus, e que apenas por saberem que estavam prestes a fazer &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;sexo&lt;/span&gt; — essa coisa tão excitante que seria o norte de toda a existência humana — ambos ficaram excitados e tiveram lentas, porém efetivas duras rudes grosseiras petrificadas ereções: &lt;/span&gt;&lt;span&gt;– &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps; "&gt;sexo&lt;/span&gt;&lt;span&gt; é &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;sempre&lt;/i&gt; bom, não? Absolutamente bom? A palavra &lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;sexo&lt;/span&gt;, qualquer ambiente sexual, é excitante por si só, independente do que acontece dentro deste? A mente humana é uma bússola — &amp;amp; o sexo a transa a foda a trepada a orgia o bacanal a suruba a sacanagem a putaria, é o seu norte? O ponteiro imantado da mente humana aponta incessantemente nessa direção &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; onde duas pessoas ou mais fazem movimentos repetidos e cadenciados umas nas outras, umas encaixadas nas outras, como animais selvagens, o ser humano almeja esse momento em que vai esquecer toda a cultura e a civilização, queimar os livros, tirar a roupa e se descomportar, mesmo que temporariamente, dentro de um quarto escuro e bem trancado, como animais selvagens fodendo livremente e sem pensar, sem pensar, abolir todo o pensamento, demolir as instituições, os shopping centers, as universidades, e ficar fodendo coletivamente desesperadamente para sempre nas ruínas &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; assim como nossas vidas caminham, segundo após segundo, na direção da morte? O norte é a morte? Sexo e morte estão intimamente conectados? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="Default" style="line-height:115%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;Passados alguns minutos, ambos estavam com uma ereção escandalosa, veias estufadas quase explodindo. K., brilhante como era, notou que todo pênis, apesar de ser uma forma fálica, tinha uma abertura, uma boquinha, um furo, por onde saía o xixi e a porra, e por essa abertura da uretra, penetrou, com seu pau, o pau de Y., que foi aos poucos se alargando, abrindo-se, dilatando-se, misteriosamente, milagrosamente, como um tubo vaginal. Logo o pau de K. estaria alargando toda a glande de Y., e após mais algumas pressionadas estaria quase que inteiramente dentro do pau de Y., o que somente não aconteceu porque o pau de K. era alguns centímetros maior do que o pau de Y. No fim, acharam tudo muito estranho e doloroso — principalmente Y., o receptor — mas sabiam que era preciso passar por provas e provações para alcançar a gloriosa certeza. Minutos antes, Y. sentia um medo terrível de gostar daquilo, porque desse modo estaria descobrindo que era veado, logo ele, que a vida inteira tinha achado, para a sua grande sorte e prazer, que era heterossexual, já que as mulheres sempre o excitaram tanto, as mulheres, aquelas coisas apetitosas e deliciosas que dava vontade de foder até morrer, oh Deus. Mas Y. sabia, &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;no fundo&lt;/i&gt;, que havia a possibilidade de gostar da experiência homossexual — e o que se sabe &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;no fundo&lt;/i&gt; é muito perigoso, principalmente para um homem. Pois nossa mente às vezes nos engana, nos convence de coisas que não existem. De acordo com as noções de Y., podemos viver a vida inteira sendo (ou achando que somos) heterossexuais, fodendo milhares de mulheres e amando cada uma de suas bocetas, sem nenhuma atração por homens e nunca se envolvendo sexualmente com um &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span&gt; o mesmo valendo para as mulheres, invertendo os gêneros desta sentença &lt;/span&gt;&lt;span&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; e no fim descobrirmos que tudo não passou de uma mentira, apenas uma ilusão criada por nossa mente para esconder de nós mesmos a cruel, negra verdade; na cruel, negra verdade — que, de acordo com Y., Deus nos revelaria, nos iluminando com a sua sagrada palavra esclarecedora — o tempo inteiro nós fomos homossexuais enrustidos &amp;amp; justamente por ter consciência dessa possibilidade foi que Y. mergulhou naquela aventura com K., em favor da verdade, para poder — se Deus quisesse e fosse bondoso — perceber que não gostava de homens e não ser mais em momento algum ameaçado por aquela ideia imbecil enquanto se deliciava com as mulheres que o esperavam de pernas abertas num futuro glorioso. Ambos, tanto K. quanto Y., acharam tudo muito doloroso, mas diziam as más línguas, por aí, que as mulheres também sentiam muita dor quando eram penetradas pela primeira vez e que depois se acostumavam. Inclusive, também costumavam sangrar, assim como sangrou o órgão genital de Y., quando feito de furo. Afinal, não haveria de ser diferente com os homens. No fim, não satisfeitos, os amigos K. e Y. decidiram tentar mais uma vez, para uma constatação final. E dessa vez trocaram os papéis: (...) o pau de Y., ao entrar furiosamente no de K., rasgou este último em dois, como um bife tenso cortado, arrebentado ao meio, revelando um tecido mais fino e rosado, abrindo-se como um filé vulnerável, hemorrágico, como se tivesse sido transformado numa vagina menstruada, cada metade indo sangrenta para um lado como dois lábios volumosos em forma de tentáculo; como uma banana que se descasca espontaneamente e dá lugar a nada; como uma banana que se descasca juntamente com a sua carne. K. sentiu uma dor pavorosa e deixou no ar um gemido lancinante, Y. continuou fodendo, armando a face com um sorriso de prazer incondicional, nunca tinha se excitado tanto quanto naquele momento. Continuou fodendo com violência o pau dilacerado de K., sentiu como se estivesse transando com uma mulher (...) aqueles lábios abertos, trêmulos, aqueles pedaços de carne rosa, ensopados de secreções corporais. Era o espectro do Paraíso, e a pressa em torná-lo real. O Paraíso não está no céu; está no meio das pernas de uma bela mulher quente e&lt;/span&gt; aconchegante, numa vagina suculenta e rosa. Quero morrer, oh Deus.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p class="Default"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-1782033084393619376?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/1782033084393619376/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=1782033084393619376' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/1782033084393619376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/1782033084393619376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/05/pesadelo-1.html' title='Pesadelo #1'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-8807898143773414642</id><published>2007-05-23T19:25:00.001-07:00</published><updated>2010-06-04T09:51:09.408-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #2</title><content type='html'>&lt;p style="color: rgb(255, 255, 255);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;O CASO DO ESCRITOR&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; de romances policiais de mistério que entregou ao seu editor um livro incompleto, com apenas dois capítulos introdutórios e nada mais. Anexou um bilhete alegando que não poderia fazer mais nada, há coisas na vida com as quais simplesmente não se pode. Nunca se sabe quando vai acontecer uma tragédia – e logo abaixo dos seus olhos, logo na ponta dos seus dedos enquanto estes digitavam compulsivamente o início do seu décimo terceiro romance, a desgraça se deu: assim que chegou à mansão em Sussex onde havia sido cometido o crime, o Detetive enfartou e morreu prematuramente. Não haveria ninguém para solucionar o caso. O assassino desta vez era tão esperto – tão esperto! – que conseguiu enganar o próprio escritor, furando sua subjetividade, entrando numa passagem secreta cuidadosamente escondida nas folhas em branco, e em seguida matando o detetive – e, não bastando tal astúcia, matou-o com causas naturais! Finalmente, o crime perfeito! O livro precisou ser arquivado, sem término.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;observações sobre o primeiro parágrafo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; – ou melhor, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;sob&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; o primeiro parágrafo, como seus olhos bem podem ver: 1ª) a respeito, ou a despeito, do &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;caso&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; do escritor, citado no início deste pesadelo, não se sabe exatamente se era um caso homo ou heterossexual 2ª) o editor, na verdade, não era propriamente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;do &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;escritor, em sentido algum: primeiramente, o editor era dos &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;livros&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; do escritor, por mais que os livros, enquanto objetos inanimados, não reclamassem essa propriedade quando por exemplo o editor ficava muito tempo sem aparecer ou sem editá-los; segundamente, o editor era do mundo, pois se criam filhos – e também editores – para o mundo, e não para si 3ª) um livro incompleto é menos do que um livro, não chega a sê-lo; um livro precisa ser completado para chegar a ser um livro, e isso significa que se um livro é incompleto, ele não é livro o suficiente para ser nomeado como tal; faltou um pouco para que ele fosse um livro, mas não se pode dizer que ele é de fato um livro; então, até mesmo dizer “livro incompleto” já é um erro, pois todo livro – para ser chamado assim – só pode ser completo; e todo incompleto – para ser chamado assim – não pode ser livro 4ª) capítulos introdutórios são capítulos em que o escritor alarga, dilata e lubrifica o tubo (vaginal) da mente do leitor para que em seguida possa partir para a ação (para os capítulos) de maior impacto e fricção, com livre acesso 5ª) “não poderia fazer &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mais&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; nada” – correto; ou se faz ou não se faz nada; ou se faz nada ou se faz tudo, ou alguma coisa; de qualquer maneira, a partir do momento em que se faz (ou não se faz) nada, não é possível fazer (ou não se fazer) &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mais&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; nada; não existem &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;quantidades&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; de nada 6ª) “há coisas na vida com as quais &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;simplesmente&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; não se pode” – correto; há coisas na vida com as quais só se pode complexamente 7ª) “logo abaixo dos seus olhos” – o nariz? as bochechas? 8ª) “a desgraça se deu” – mas que gesto nobre da parte da desgraça, dar-se assim; que atitude mais altruísta! 9ª) “Sussex” – abreviação da língua inglesa para “sucesso no sexo” 10ª) se o Detetive morreu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;prematuramente&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;, sua morte, então, pode ser considerada um aborto?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;O editor, num ato impulsivo – para dentro do seu próprio pulso – decidiu publicá-lo do mesmo jeito (incompleto) e para a surpresa geral (e também particular) o livro foi muito bem recebido tanto pelo público quanto (?) pela crítica, que o rotulou de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;extraordinário&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; (ou seja – ordinário demais?) &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;revolucionário&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;o que há de mais moderno na literatura de mistério desde o assassinato no expresso do oriente&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Depois de uma experiência tão traumática, perdendo seu Detetive tão tragicamente, o escritor decidiu abandonar o gênero policial e aventurou-se a escrever uma aventura; na qual um garoto chamado J., obedecendo somente ao princípio narcisista do prazer, sai mundo a fora (e mundo a dentro, pelos metrôs e esgotos) matando todos os seres humanos do sexo masculino que encontra pela frente (e também por trás e pelos lados). Seu objetivo, um tanto utópico, era eliminar todos os homens da face da terra, para que depois, sozinho no mundo com todas as mulheres, estas ficassem loucas para &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;dar&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; – e consequentemente também para &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;receber&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; – e como não teriam outra escolha, histéricas de tesão, correriam de pernas abertas para ele, que meteria à vontade e, além disso, poderia escolher a mulher que quisesse, entre as mais bonitas e as mais gostosas. “As feias eu vou comer só por caridade”, diz J. numa passagem do primeiro capítulo, quando explica seu plano ao melhor amigo, o qual logo em seguida ele assassina brutalmente. Seu objetivo, um tanto utópico, era se tornar uma espécie de Rei, de Deus, deus das mulheres, a reunião de todas as grandes figuras masculinas do universo num só homem, Don Juan + Casanova + Zeus + Bubble Gum = J., o rapaz aventureiro. Seu objetivo, um tanto utópico, era poder apenas apontar insolentemente para uma mulher na rua se quisesse comê-la &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;ei você, venha me dar&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; ou simplesmente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;abra essas pernas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; e a mulher obedeceria de bom grado, a não ser que fosse uma frígida disposta a passar o resto da vida sem ter um pau novamente dentro de si, literalmente criando teias de aranha em seus lábios metafóricos. “As Aventuras de J.” foi inspirado em pensamentos e desejos que o próprio escritor teve quando mais novo: ele questionava seriamente o sentido e a utilidade das roupas, desejava que todos andassem nus pelas ruas porque assim o sexo seria uma coisa mais acessível e, vos digo, ele estava louco para foder pela primeira vez; bastaria se aproximar de uma mulher qualquer e encaixar-se nela, sem esse preciosismo babaca que as pessoas têm com suas genitálias. Relatos diziam que ele, quando ainda se encontrava no interior da barriga de sua mãe, nunca chutava – como geralmente fazem os bebês; suas manifestações eram outras, mais peculiares, como testemunhou certa vez uma ultra-sonografia: seus pais achavam que ele estava chutando, mas na verdade ele estava roçando seu avantajado pirú nas paredes internas da barriga de sua mãe, como quem se masturba no colchão à noite; relatos diziam que ele &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;nasceu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; de pau duro e molestou a enfermeira que o colocou na incubadora; tentou mamar nela, que se ofendeu profundamente com o assédio; em seguida ele também ficou bastante ofendido quando a mesma enfermeira tentou enfiar nele um tubo roliço, mais precisamente em suas narinas. “Por que a Thaís não me dá a boceta?” – ele se questionava aos 13 anos com a mesma seriedade e profundidade existencial com a qual Hamlet se questionou “Ser ou não ser?”. “Qual é o mistério?” – ele se perguntava. “É apenas uma parte do meu corpo entrando numa parte do corpo dela! O que há para se censurar nisso? É algo tão simples! É como se eu enfiasse o meu dedo na orelha dela, ou minha língua no nariz dela. Não entendo por que tanta dificuldade para trepar!”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Conforme os anos se passaram J. percebeu que seu sonho não viraria realidade, que não era possível que todos andassem nus pelas ruas e fodessem à vontade devido às regulamentações impostas pela civilização. Já que nós, seres humanos, somos os únicos seres civilizados, não podemos nos comportar como cachorros, trepando animalmente com qualquer um em qualquer esquina aos olhos de todos. Vários homens correndo de pau duro na direção de uma só mulher que está de quatro exibindo sua boceta e seu cu no meio da praça – impossível. Mesmo que todos os homens &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;queiram&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; correr por aí de pau duro se encaixando no primeiro buraco disponível; mesmo que todas as mulheres &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;queiram&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; exibir suas bocetas e seus cus no meio das praças, é preciso fazer um esforço para conter este ímpeto selvagem. Pelo bem do nosso pedigree.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Ainda assim, antes de desistir por completo J. desejou, então, possuir visão de Raio-X, para poder ver livremente os peitos as bundas &amp;amp; as xerecas escondidas por debaixo das roupas. “Ver as coisas como elas realmente são”, disse J. É preciso dizer que ele não era apenas um tarado ninfomaníaco, como vocês podem estar pensando; ele era um menino digno, que apenas não suportava as mentiras, as ilusões da civilização; era um amante da verdade. Obviamente J. não conseguiu obter a tal visão de Raio-X; era apenas mais uma de suas utopias pré-primeira transa. Então, contentando-se um pouco mais com suas limitações, ele resolveu elaborar um plano menos fantasioso, mais facilmente realizável, uma coisa mais concreta e acessível. Certa manhã, antes de ir para o colégio, ele colou um pedaço de espelho quebrado no dorso do seu tênis para que pudesse ver as calcinhas das meninas posicionando seu pé estrategicamente por debaixo de suas saias. Para sua surpresa e deleite, algumas delas estavam sem calcinha – e a visão daquela carne virgem rosada com pêlos crespos o deixou inteiramente arrepiado, e de repente ele entendeu por que estava vivo, neste mundo. Aquilo ali, entre as pernas das meninas, aquilo ali era a coisa mais importante do universo; a razão de toda a existência. Não é só sacanagem, não, meus queridos leitores – é misticismo. Por isso é que J. não conseguia compreender as &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;religiões&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; que condenavam o sexo, já que para ele o sexo era a única maneira possível e autêntica de se entrar em contato com as forças materiais e imateriais da natureza, com o princípio e com o fim da existência ao mesmo tempo, com as partículas da eternidade. Na correria caótica do retorno à sala no fim do intervalo ele sempre aproveitava para apalpar e apertar a linda bunda da menina que sentava à sua frente na aula sem ser identificado. Se o tumulto fosse muito grande, ele ousava ao ponto de enfiar o dedo entre suas redondas nádegas o mais fundo, o mais profundo que conseguia, e quando ela virava para ver quem fora o filho da puta, o filho da puta já estava lá na frente cheirando o dedo apaixonadamente sem ser percebido. Ela se chamava Priscilla – com dois eles – dona de um rabo tão grande e duro e de um short tão apertado que quando ela se sentava um enorme vão se formava no meio de suas nádegas, um vão em forma de V, e J. sutilmente enfiava o dedo ali, naquele delicioso V, durante o silêncio da aula sem chegar a encostar mas ficando muito próximo a ponto de sentir o calorzinho do cu, o calor do cuzinho, como que ameaçando dedar, ameaçando rasgar o cu, fechando os olhos com cara de sonho e imaginando tocar delicadamente aquele maravilhoso cu – que escondia dentro de si todos os mistérios e enigmas do universo; todos os segredos da vida. Moleque aventureiro, esse J.! Você não pode perder a prazerosa leitura de suas aventuras...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:26.0pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);font-size:130%;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-8807898143773414642?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/8807898143773414642/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=8807898143773414642' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/8807898143773414642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/8807898143773414642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/05/pesadelo-2.html' title='Pesadelo #2'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-7124829362900159970</id><published>2007-05-23T19:20:00.000-07:00</published><updated>2010-06-04T09:51:59.190-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #3</title><content type='html'>&lt;p style="color: rgb(255, 255, 255);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: -webkit-xxx-large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; font-variant: small-caps; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; não &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;era&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;nato. A única razão pela qual ele&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; se tornara&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; era porque se havia algo que ele realmente odiava nessa vida (e provavelmente também em qualquer outra) era que não respondessem a uma pergunta sua. Ter uma de suas perguntas ignorada afetava de tal forma o seu coração o seu sistema nervoso e principalmente o seu cérebro que este produzia e liberava a grossa e rude substância da &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;raiva&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; ao longo de todo o seu corpo, inchando e obstruindo suas veias de modo que nestas não mais corria ou passava qualquer outro sentimento. O amor ou a compaixão até faziam um pequeno esforço para tentar passar, abrir caminho, mas sempre em vão – aquele corpo já estava 200% dominado e possuído pela &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;raiva &amp;amp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; vomitava para fora de si todos os outros sentimentos rivais. A primeira vítima foi, tão cedo, um amigo de infância, vejam bem, que estava empolgado numa conversa sobre futebol e mostrava-se esperançoso com o time que compartilhava com Rogério, que apesar de ser um dos últimos colocados na tabela do campeonato (o time, não Rogério) já iniciava uma boa reação e matematicamente ainda tinha chances de alcançar as primeiras posições, caso a recuperação não cessasse e se metamorfoseasse numa verdadeira reviravolta rumo à invencibilidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;AMIGO: Cara, o nosso time ainda pode ser campeão!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;ROGÉRIO GOULART: É, amigo...&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Quem sabe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Podemos até mesmo dizer que foram as &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;circunstâncias&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; que fizeram dele um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;... Podemos dizer, até mesmo, que Rogério, ao mesmo tempo em que matava serialmente, era morto da mesma maneira, serialmente morto pelas circunstâncias, que frequentemente faziam-no de vítima; vítima justamente por ter de assassinar, por ter de matar, às vezes, pessoas tão queridas. Queridas e degoladas; enforcadas, asfixiadas, esfaqueadas, esquartejadas – e queridas; pedaços queridos; queridos &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="em peda￧os. Pois" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;em  pedaços. Pois&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; ele realmente amava e admirava profundamente aquele garoto, seu querido amigo de infância (...) porém, talvez pelo mesmo motivo, ele não esperava nunca que o garoto um dia fosse decepcioná-lo tão gravemente, daquela maneira tão brusca e brutal, ignorando totalmente uma pergunta que ele fizera; e isso, vindo de uma pessoa tão amada, era uma decepção e uma ofensa ainda maiores.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Para o seu gigante espanto, o amigo não responde nada, inicialmente. Vem do ar uma nota sombria de piano, dotando a cena de algum suspense. Um tenso silêncio se instala no ambiente, como quando o vilão malvado do faroeste adentra subitamente o &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;saloon&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; deixando as portas balançando. O amigo faz de tudo: tamborila os dedos na mesa, coça o couro cabeludo, balança a cabeça, olha para o céu, olha para o chão, coça o saco, passa o dedo ao redor da boca do copo, mas nem mesmo ensaia responder o que Rogério havia perguntado: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;QUEM SABE, PORRA?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;extremamente tenso, músculos endurecem em rudes nós atrofiados, olhos se pregam na boca do amigo com as marteladas que a &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;raiva&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; dá na parte de trás de sua cabeça, esperando ansiosamente pela resposta, a &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;raiva&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; engrossa e esquenta seu sangue, seu sangue atinge a temperatura de 300 graus Celsius, ferve, queima sua pele, que fica levemente enfumaçada e espalha um sutil cheiro de churrasco humano no ambiente, ele tinha ódio mortal da possibilidade de uma pergunta sua ser ignorada por qualquer pessoa que fosse, fosse um completo estranho ou fosse seu completo pai. Se ele por acaso encontrasse Elvis em carne e osso escondido numa ilha deserta e lhe perguntasse &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Meu Deus Elvis então é verdade que você não morreu?! &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;e Elvis não o respondesse (se era verdade ou não) e apenas continuasse vivendo, foda-se, ele não hesitaria em assassinar o rei do rock. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Morreu sim! &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Passados dois longos minutos de tesão quer dizer de tensão Rogério constatou que da boca do seu melhor amigo de infância não sairia resposta alguma – o amigo agia naturalmente como se Rogério não tivesse feito qualquer pergunta – um verdadeiro ultraje! – e adentrou os limites da fúria, logo ultrapassando os mesmos, levantando-se bruscamente em &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;slow-motion&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; fazendo balançar a mesa e cair para trás sua cadeira que produziu um estrondo ensurdecedor ao encontrar o chão e chamou a atenção de todos os presentes no bar, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;retirou do bolso de sua jaqueta de couro jeans algodão linho seda uma pequena pistola calibre 22 e meteu um tiro seco no meio da testa do amigo que caiu aos poucos e de forma muito esquisita no chão do bar tentando entender o que estava acontecendo assim como caiu Sterling Hayden sendo assassinado por Al Pacino no restaurante italiano logo após a tensa cena no banheiro &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="em que Michael Corleone" st="on"&gt;&lt;st1:personname productid="em que Michael" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;em que Michael&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; Corleone&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; procura pela arma supostamente escondida detrás da descarga do vaso sanitário. A princípio parece que a arma não está lá, ele tateia com nervosismo mas não consegue encontrá-la, música de suspense composta por Nino Rota, de perturbar os nervos. Solozzo também está lá fora, no restaurante, esperando por Michael, e com Solozzo, ele e sua cara de mau, aquele sorriso cínico e perverso de quem mataria a própria mãe sem hesitar, sem perder o sorriso e a postura diplomática – são negócios, apenas negócios – com ele não se brinca. Aliás, é uma das maiores lições deste filme, algo que se aprende ao assisti-lo: com Solozzo não se brinca. Michael finalmente encontra a arma, mas surpreendentemente o alívio é apenas parcial, isso não alivia totalmente a tensão da cena, pois a tensão, assim como a música de suspense, já se instalara, tanto em nós quanto em Michael, e agora ele ainda precisa voltar para a mesa fingindo estar calmo e esperar o momento certo de meter chumbo nos dois filhos da puta que rechearam seu pai de balas e quase o mataram, Solozzo e o policial maldito que além disso enfiou um puta soco na cara de Michael na porta do hospital. Aquela era a sua primeira investida no mundo do crime, Michael Corleone, o herói de guerra que um dia jurara que nunca se envolveria nos negócios do pai. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;It’s my family, Kay. It’s not me&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;A segunda vítima de&lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; foi sua primeira namorada, por quem ele era louco de paixão. Ele faria qualquer coisa por aquela menina. Ele mataria alguém, por aquela menina. Foi numa sexta-feira 12. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;era um homem sensível, e sentia-se muito mal sempre que via uma pessoa acidentada ou morta. De acordo com os relatos póstumos dos seus parentes – relatos psicografados após a morte dos mesmos – em geral ele não gostava muito de ver sangue e tinha muita pena de morte. Aliás, era por &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;isso&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; que ele sempre matava de olhos fechados, por não gostar de ver sangue, e não somente por querer provar sua extrema habilidade como assassino – como sugeriam alguns maldosos tablóides da época. Estava dirigindo tranquilamente seu carro na estrada com sua namorada ao lado indo passar o fim de semana em sua casa de veraneio quando de repente numa perigosa curva da estrada poucos metros adiante do seu carro ele avista uma confusão que não consegue decifrar de imediato: pessoas de pé formando um círculo ao redor de alguma coisa que olham curiosamente, viaturas da polícia, corpos de bombeiros (vivos), clima fúnebre, mulheres soltando gemidos (sexy – se apenas ouvíssemos, de olhos fechados) e gritos lancinantes de dor, lenços enxugando vários pares de olhos lacrimosos. Ao se aproximar, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; pôde avistar, por entre os corpos vivos da multidão, o corpo morto do motociclista, em terrível estado, caído ao lado de sua motocicleta reduzida a um pedaço fodido de ferro velho e fodido. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;reduz a velocidade e levanta a cabeça para tentar ver melhor o corpo do morto e admirar o sangue jorrado. Ainda não tinha notado quão terrível ele de fato estava. Subitamente leva um choque quando por fim a multidão abre um espaço maior e revela por inteiro o motociclista estraçalhado todo quebrado e ensangüentado com ossos para fora e pele para dentro carne e sangue para todos os lados, e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;pergunta&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; à sua namorada – que está boquiaberta com olhar perdido e mergulhado na poça de sangue que escorria de um buraco no crânio do defunto:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;QUE COISA, NÃO?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Coitado de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;. Venho por meio deste expressar profunda pena e compaixão por&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; font-variant: small-caps; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;: ele amava tanto aquela menina! Mas para sua gigantesca infelicidade, ela não respondeu. Não balançou a cabeça, não consentiu, não discordou, não emitiu sequer um gemido, não esboçou qualquer reação, apenas continuou a encarar o morto com o olhar perdido e sofrido, deixando o pensamento fluir doloroso junto do sangue que pingava do crânio aberto do morto enquanto lágrimas rolavam de seus olhos encharcados, inchados e vermelhos, lágrimas que não diziam nada, que não respondiam nada, lágrimas sem linguagem, inúteis. Alguns quilômetros adiante do acidente, num ponto menos movimentado da estrada, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; parou o carro à beira do abismo e ordenou que Daniele Clark saísse. Ela resistiu, não compreendendo aquele súbito surto do amado namorado. Achou que ele estivesse brincando, mesmo que com mal gosto, como numa tentativa radical de animar o clima que ficara extremamente gelado e gélido após a cena do acidente. Ele insistiu com veemência, pediu que ela o levasse a sério, pois ele não estava brincando; porém, o próprio fato dela não ter respondido a sua pergunta era um sinal de que ela não o levava nada, nem um pouco a sério. Ela continuou resistindo, pediu que ele parasse com aquilo, com aquela brincadeira estranha, e voltasse para o carro. Ele insistiu mais uma vez, perdendo a paciência, que escorria dele como o sangue do crânio do motociclista, indo embora dali. Ela finalmente percebeu que ele falava sério e, muito nervosa e, com muito medo e, apavorada e, em prantos e, desceu do carro soluçando e, o carro logo deu ré e voltou a toda velocidade para atropelar e quebrar aquela delicada mulher com a pele tão fina e hidratada ribanceira a baixo, enquanto ela chorava aos soluços dizendo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Rogério não me abandone, não faça isso comigo Rogério, não faça isso com o meu coraçãozinho!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;era defensor da ideia de que ninguém diz, de que ninguém &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;afirma &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;“Quem me dera”. “Dera” quer dizer “tinha dado” &amp;amp; logo a frase “Quem me tinha dado”, jamais poderia ser uma afirmação. Era uma pergunta – e perguntas são feitas para serem respondidas. Outra coisa que ele não suportava era que dessem respostas totalmente incoerentes às suas perguntas. Um dia (na verdade já era noite) ele perguntou a um colega de trabalho: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Já pensou se não ganharmos o décimo terceiro esse ano, cara? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Ao que o cara, infeliz, respondeu: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;É, imagina que merda!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; Tinha uma ótima e quentíssima esposa e três belos filhos pequenos e louros. Se tivesse se limitado a responder “sim” ou “não” ainda teria feito algum sentido – &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Já pensou ou não? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;– e não teria tido o pescoço instantânea e brutalmente retalhado com um canivete suíço &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;made in china&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; multifuncional. NOTA: As lâminas são o ponto em comum entre os &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killers&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; e as donas-de-casa. FIM DA NOTA. O que me faz lembrar da mãe de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;, coitada da mulher, que um belo e fatal dia também &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;acabou&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; ignorando uma pergunta do seu ainda mais coitado filho, que sempre fora tão apegado à mãe e ainda assim precisou executá-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Algumas semanas após perder o emprego por ter retalhado o colega,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; passou três longos dias sem comer, sem dinheiro para satisfazer tal necessidade. NOTA: A incoerência da convenção do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;dinheiro &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;é simples de ser revelada. Basta pensarmos na situação de Rogério, sem dinheiro para comer. Ele diria: Não tenho &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;dinheiro&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; para &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;comer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;. Mas, afinal, era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;dinheiro&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; que ele comeria? Era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;dinheiro&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; que ele precisava ter para comer? Não era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;comida&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;? Quando &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; soube disso, dessa incoerência, após ler esse trecho do livro, preparou-lhe um banquete de domingo com farofa de banana e frango assado para nutrir o filhinho querido. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; se empanturrou de comida, até o ponto em que não aguentava mais colocar absolutamente nada no estômago. Ainda assim, após a farta sobremesa, para fazer uma surpresa agradável ao filho, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;, mulher travessa, entrou na cozinha com uma travessa de barro elevada nas mãos e um enorme sorriso no rosto (é preciso frisar que o sorriso estava no rosto, pois às vezes o sorriso de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; escorregava para o seu pescoço e recusava-se a sair dali). Rogério se apavorou, com medo de precisar comer mais alguma coisa, pois não saberia dizer não a uma comida da mãe, para não fazer desfeita, e corria o risco de explodir se enfiasse mais alguma coisa no estômago abarrotado (ele arrotou). Sem perceber imediatamente do que se tratava, começou a tentar desvendar o mistério enquanto sua mãe se aproximava com aquela travessa e o sorriso que ameaçava sair do rosto e pular para outra parte do corpo: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;O que mais poderia ser servido além da sobremesa? Um outro prato salgado? Mas isso seria estranho demais! Já comi a sobremesa! Então, uma outra sobremesa, talvez? Caralho!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; Quando meteu os olhos dentro da travessa, avistou um gordo envelope branco, que &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; lhe estendeu como um presente, e arrepiou-se aliviado. Tratou de abrir o envelope furiosamente – para conferir com 100% de certeza de que não se tratava de uma barra de chocolate ou algo do tipo – como uma criança faz com presentes de aniversário, não respeitando laços, fitas adesivas ou papéis coloridos em função da extrema curiosidade. Sua mão puxou de dentro do envelope o valioso recheio: um grosso e suculento bolo de dinheiro, cuidadosamente preparado com as economias de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;, que agora gentilmente as cedia ao filho necessitado. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; chorou, enternecendo-se com o amor $ que recebia da mãe. Sentou-se no seu colo, numa das cadeiras, e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;perguntou &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;– quatro primeiras notas da 5ª sinfonia de Beethoven: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;MAMÃE... O QUE SERIA DE MIM SEM VOCÊ?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;mama goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; sorriu, feliz, satisfeita com a gratidão do filho. Apenas sorriu, feliz, satisfeita com a gratidão do filho. Nada mais; somente sorriu feliz, satisfeita com a gratidão do filho. Fez carinho na cabeça do filho querido durante dois silenciosos minutos. Isso mesmo que vocês ouviram: dois, silenciosos, minutos. E para os sensíveis ouvidos do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;/&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial victim of circumstances&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; o volume desse silêncio a cada segundo aumentava até gerar um chiado extremante perturbador, pressionando seus tímpanos ao ponto de rompê-los. Seus olhos começaram a se mover involuntariamente para cima, na direção do rosto da mãe, de onde ele esperava desesperadamente por uma resposta. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Fala, mãe! Responde, mãe! Desembucha!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; – ele gritava em seus pensamentos. De tanto desespero que sentiu nesses tensos minutos, os mais tensos minutos de sua vida, Rogério tentou alucinar a resposta, produzi-la com seus próprios ouvidos. Chegou ao ponto de quase pedir, mesmo, que sua mãe respondesse; chegou a abrir a boca e mover a língua para fazer o pedido, mas previu que isso causaria uma ferida irremediável no seu orgulho, pois ao pedir estaria negando tudo o que tinha sido até então. Não, ele não pediria. A culpa que sentiria depois, por isso, não seria menor que a culpa que sentiria por ter matado a mãe. Então, começou a rezar. Ele não acreditava em Deus, pois Deus, por exemplo, nunca tinha respondido sequer a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;uma&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; de suas perguntas, que sempre foram muitas, excessivas, desde cedo. Já ouviram falar na polêmica e revolucionária constatação do filósofo alemão Friedrich Nietzsche de que “Deus está morto”? É verdade – e quem matou foi &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;. Rogério, que mesmo assim começou a orar, naquele instante de desespero e desesperança: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Deus. Peço que ressuscite. Faça minha mãe responder à minha pergunta, por favor. Pelo amor de Deus, ops, pelo seu amor!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; A cena se desenrolava e se enrolava de novo daquele mesmo jeito: Rogério no colo da mãe, com a cabeça em seu peito, tenso (o peito, não Rogério), a mãe emocionada com a gratidão do filho, deixando-se levar pelo terno momento de carinho, o filho eletrizado, cheio de pensamentos malevolentes assombrando sua cabeça, esperando ansioso por uma resposta, comportando-se como se não quisesse deixar transparecer a sua angústia, como um bebê que saboreia um mamilo mas aos poucos começa a desconfiar do leite que mama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;ainda insistia em produzir dentro de si a fé de que o silêncio (que quase estourava seus tímpanos de tão alto) seria quebrado com uma resposta de sua mãe. Começava a reconsiderar as possibilidades da situação: 1) talvez a mãe não tivesse ouvido a pergunta; 2) talvez a mãe não tivesse ouvidos; 3) mas orelhas ela tinha; 4) e não era possível que ela não tivesse ouvido, pois ele perguntara de muito, de muito perto, quase roçando seus tímpanos; 5) Rogério começou a chorar e 6) depois terminou de chorar; 7) e conforme seu choro foi baixando, seus olhos foram subindo, cada vez mais, como que para constatar finalmente se a resposta estava apenas terrivelmente atrasada ou se afinal não seria mesmo dada, em nenhum momento, para o azar dos dois; 8) fingiu que ia coçar a perna para distanciar sua mão das costas da mãe e esticou o braço para alcançar uma faca de cozinha de serra que havia em cima da mesa (enfim o &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;serial killer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; encontra a dona-de-casa) e não hesitou em manter de pé a sua dignidade, a sua integridade de homem que dialoga, que sempre dialoga e que nunca, que nunca monologa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Muita coisa aconteceu a &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; depois daquele triste episódio em que picotou a pessoa que o colocou no mundo. Segundo os relatos, antes de tirar sua própria vida numa cela da Prisão Estadual por não ter respondido, ele mesmo, a uma de suas perguntas, Rogério enlouquecera e passara uma temporada internado em um famoso hospício chamado Inferno. Os médicos disseram que nesta época ele estranhamente passou a transformar perguntas em afirmativas – o que, convenhamos, era realmente uma incoerência – e um belo dia – cheio de sol, nuvens e jardins coloridos – uma velhinha enrugada de mais de cem anos passou à frente de Rogério; ele se certificou de que ela estava usando um relógio, aproximou-se e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;exclamou&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;QUE HORAS SÃO!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; font-family: 'Bodoni MT', serif; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Repetindo, para os mais desatentos: ele &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;exclamou&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;. A velhinha, com o pouco que restava de sua visão, foi catar as horas no relógio e assim &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;respondeu&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Dez e meia, meu filho e foi degolada cruelmente. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;Barbaramente. Um artista plástico foi ver a cena, a velha caída morta e o sangue vermelho secando em sua roupa branca e exclamou a respeito da composição: &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;bárbaro&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;! &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;rogério goulart &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"&gt;morreu enforcado com trinta e sete anos. Aliás – com uma corda. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style=";font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 255);"&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-7124829362900159970?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/7124829362900159970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=7124829362900159970' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/7124829362900159970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/7124829362900159970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/05/pesadelo-3.html' title='Pesadelo #3'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-3027919606126067144</id><published>2007-05-23T19:16:00.000-07:00</published><updated>2010-06-04T10:04:47.455-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #4</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;  text-transform: uppercase; font-family:'Bodoni MT', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;As coisas começaram&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; a se relacionar de uma maneira cada vez mais estável e próxima e fixa com as palavras – por mais que esta relação tivesse um aspecto estranho e, de alguma forma, falso – a ponto d’eu ter achado em boa parte da minha vida que as quinas, que toda quina – fosse esta de rodapé, de mesa, de cadeira ou de corrimão, qualquer quina – era feita para se bater a cabeça; justamente para se bater a cabeça. Como se esta fosse a função da coisa – feita para &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;isso&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – seu predicado imutável, inalterável e primário, e pronto. O acidente tomando o lugar da essência.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;O curioso é que essa história de quinas tem muito a ver com o dia em que ganhei meu predicado primário e inalterável de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Eu – &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Tinha seis anos de idade e brincava com o meu Forte Apache num quarto quase vazio onde havia somente uma velha poltrona de um único assento isolada num canto e um quadro pendurado na parede – nós havíamos nos mudado há poucos dias para aquele apartamento. A janela estava aberta e deixou entrar uma súbita ventania trazida por um ciclone que se aproximava e que derrubou o quadro com uma de suas quinas diretamente na minha cabeça frágil de criança, rompendo e rasgando a fina pele da minha moleira. Levei a mãozinha até o ponto da dor e quando avistei a ponta dos meus dedos decorada com sangue vermelho, desesperei-me e corri até a sala chorando e gritando que me levassem imediatamente ao hospital. Naquela época qualquer sangramento na cabeça, por menor que fosse, representava para mim sério risco de vida. Ou melhor – sério risco de morte. A cabeça sempre foi muito importante para mim, principalmente na infância, quando eu sentia que era dentro da cabeça que toda a existência se dava. Agora mesmo, ao escrever estas memórias, senti-me tonto e ameaçado por um pensamento indesejado: tudo o que é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; não sou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, certo?; tudo o que é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; é extrínseco ao meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; sendo assim, se eu falo da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; cabeça, minha cabeça não sou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; mas tenho a forte impressão de que o &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; fica na cabeça (ou mente), e imagino que vocês também a tenham; aliás, como vocês viram algumas frases atrás, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; mesmo posso falar de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mim&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; mais do que isso, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; posso falar do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; e se falo do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; eu, isso sugere que &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; é extrínseco a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mim &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mesmo; grandes paradoxos; como é possível saber, então, o que exatamente é esse &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou se ele realmente existe? Caralho – deixa eu afastar esse pensamento! Às vezes a importância da cabeça para mim se acentuava tanto que minha cabeça acabava sugando o resto do meu corpo para dentro dela, e &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – em vez de andar com minhas pernas – ficava rolando de um lado a outro, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; = &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha cabeça&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Deram-me um copo d’água com açúcar para que eu me acalmasse e tentaram me convencer de que tinha sido apenas um pequeno machucado inofensivo, que a pele da moleira logo se regeneraria e meu crânio voltaria a se fechar, o que eu não engoli com facilidade, nem com a ajuda do líquido que me deram. Continuei chorando e tremendo, muito preocupado, acreditando que aquela poça de sangue na qual eu mergulhava a ponta dos meus dedos poderia representar minha futura (breve) morte. Para que eu me acalmasse de vez, mas chateados por terem que parar de assistir a novela, levaram-me ao apartamento de um vizinho que era médico para que ele me aliviasse e me deixasse mais seguro de que não eu corria o menor risco de vida. Ou melhor – o menor (e muito menos o maior) risco de morte. Ou melhor, não – ou pior! Ele me examinou minuciosamente, com muita atenção e curiosidade, um sorrisinho egoísta no rosto como um cientista que descobre uma fórmula nova, e após exigir toda a sorte de exames (que bom que exigiu sorte, porque se exigisse todo um azar de exames me deixaria ainda mais nervoso) cujos resultados diagnosticaram quatro letrinhas maravilhosas: A, R, T, E. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;MÉDICO: Seu filho a partir de agora, madame, é irremediavelmente um artista. O quadro que caíra na minha cabeça era um original de Paul Klee. A quina do quadro, ao rasgar a finíssima pele da minha moleira, abriu uma pequena fresta no meu crânio, e através desta brecha entraram duas gotas de tinta vermelha que pingaram do quadro, levemente derretido pelo calor de 45 graus que fazia aquela tarde, tinta que havia sido misturada pelo próprio Klee em seu ateliê e que consequentemente continha o gene, o germe, o verme do artista, que se infiltrou e tomou meu cérebro por inteiro. Desde muito cedo eu já possuía sérias propensões, sérias tendências artísticas, caralho, mas aquele acidente fez de mim um artista por definitivo, sem qualquer sombra de dúvida possível, como se &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, a partir dali, fosse meu DNA, meu sobrenome, um nome que não se separa do meu de maneira alguma, que não se separa do meu nome, do meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, do meu Ser: um nome &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sobre&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; o meu. O predicado imutável de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; pessoa. Então, a partir daquele dia, dizer meu nome implicava dizer &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – estava subentendido – dirigir-se a mim implicava dirigir-se a um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Antes de homem, eu era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Antes de ser humano, eu era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Aliás, eu não &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;era&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista; eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sou&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista, no presente. No presente, no passado e no futuro, mas sempre no presente. Eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;era&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sou&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;serei&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, sem dúvida, artista. Artista é dos meus predicados aquele que se antecipa a todos e não dá lugar a nenhum dos outros predicados que eu possivelmente possa ter. Estável. Imutável. Inabalável.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Que sorte, a minha. De outro modo, imaginem, eu só &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;seria&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; de fato artista enquanto estivesse executando o meu trabalho de criação, no ateliê, no gerúndio, apenas nestes momento de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ação &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu poderia dizer a mim mesmo e aos outros que eu era (sou) artista. No dia-a-dia, no cotidiano, não fosse o acidente, tudo me seria extremamente doloroso, pois qualquer outra coisa que eu fizesse que não fosse &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;arte&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; incitaria o meu cérebro a me gerar dúvidas quanto a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ser&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não ser&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista, quanto a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ter&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não ter&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; dons artísticos. Nesse aspecto, aquele mal me veio para bem. O acidente veio para me fornecer tranqüilidade eterna. Se não fosse assim eu precisaria renunciar a todas as outras coisas da vida, da minha vida, em função da segurança em relação ao predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Não me envolveria com mulheres, pois o fazendo estaria exercendo o papel de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, estaria &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sendo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; homem, estaria preenchendo e ocupando a lacuna do predicado – que fica logo ao lado da lacuna do sujeito (&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu sou, eu tenho&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;) – com a palavra &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Isso poderia ser muito prejudicial ao meu principal papel no mundo, que era (e ainda é, e ainda será) ser artista. Aliás, papel não – chumbo; ferro; metal. Se eu relaxasse demais sendo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, se eu me deixasse levar por inteiro pelo prazer de ser &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, isto é transar com mulheres, ser = transar, seria inevitável deixar de lado por um momento o predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;para me dedicar ao prazer sexual, e talvez, nesse breve momento de relaxamento, distração e perda do domínio, meu lado artístico se desfaria, se desintegraria, e depois – após a relação sexual – quando eu fosse recuperar meu lado artístico, não conseguiria mais acessá-lo; só restaria para mim o predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, impedido de ser ao mesmo tempo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Você não deveria ter se deixado levar!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – eu diria para mim mesmo, chorando. Seria preciso que eu ficasse o tempo inteiro atento para ver se ainda possuía aquela preciosa faceta da minha essência e personalidade, nunca podendo estar à vontade com as outras delícias da existência. Ou então, teria que foder pintando; mesmo que fosse pintando mentalmente, distante do momento presente, sem a dedicação e concentração necessárias para satisfazer a mulher ou satisfazer a mim mesmo. Todo o resto das coisas que existiam (e ainda existem) para ser feitas, tudo o que não é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;arte&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, afastar-me-ia, potencialmente, do centro, do âmago do meu ser. Do âmago artístico do meu ser artístico. Enquanto eu estivesse sendo pai, por exemplo, onde ficaria o artista? Enquanto eu estivesse sendo jogador de xadrez, por exemplo, em que canto descansaria o artista? É esse o problema: nenhum descanso é seguro. Quem nunca prolongou o tempo de vigília, quem nunca forçou a insônia, com medo de dormir e nunca mais acordar? Não há nenhuma garantia. Bom, felizmente para mim, eu posso ser homem e artista ao mesmo tempo, a hora que eu quiser, pois meu cérebro estava (está) irremediavelmente contaminado com o néctar vermelho de Paul Klee. Posso relaxar sendo homem, sendo jogador de futebol, sendo qualquer coisa, que no fim é certo de que ainda serei um artista. A hora que eu quiser. Agora que eu quiser. Graças às quinas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" line-height: 18px; font-family:'Bodoni MT', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;E quanto a vocês, outros artistas do mundo, fadados à insegurança – como fazem para suportá-la? Vocês que, de uma hora para outra, da noite para o dia, podem vir a descobrir a verdade, que pode acabar revelando que vocês não são verdadeiramente artistas... Que tudo não passou de uma mentira, de uma auto-ilusão... Que vocês tiveram um relâmpago de criatividade, talvez, numa certa época da vida, mas agora tudo o que resta é seguir uma outra carreira e assumir uma impossibilidade... Pois a vida é assim, cheia de limitações, impossibilidades e desejos não realizados, não realizáveis e, por fim, e pôr fim, e... enfim. Pois a vida é cheia de ameaças; cheia de coisas que amamos mas que infelizmente não são feitas para nós, coisas que amamos mas tudo o que podemos fazer é admirá-las à distância, de longe, na posse de outros. Pois antes daquele acidente, quando eu tinha quatro ou cinco anos de idade, todo poema que eu escrevia, cada palavra que eu colocava no papel, além de ser a expressão de um sentimento, além de ser a execução de uma idéia, era um teste para mim mesmo, uma constatação, uma tentativa de alcançar uma resposta definitiva para a seguinte pergunta: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Sou ou não sou poeta?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Ao final do poema, na última sílaba da última estrofe que eu deitava no papel, eu desejava que a resposta, acompanhada de um brilho intenso, fosse positiva. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Sim, sorria! Você é mesmo poeta!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Hoje, graças às quinas, não sofro mais destas inseguranças.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;O curioso é que essa história de quinas tem muito a ver com o dia em que ganhei meu predicado primário e inalterável de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Eu &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Tinha seis anos de idade e brincava com o meu Forte Apache num quarto quase vazio onde havia somente uma velha poltrona de um único assento isolada num canto e um quadro pendurado na parede &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; nós havíamos nos mudado há poucos dias para aquele apartamento. A janela estava aberta e deixou entrar uma súbita ventania trazida por um ciclone que se aproximava e que derrubou o quadro com uma de suas quinas diretamente na minha cabeça frágil de criança, rompendo e rasgando a fina pele da minha moleira. Levei a mãozinha até o ponto da dor e quando avistei a ponta dos meus dedos decorada com sangue vermelho, desesperei-me e corri até a sala chorando e gritando que me levassem imediatamente ao hospital. Naquela época qualquer sangramento na cabeça, por menor que fosse, representava para mim sério risco de vida. Ou melhor &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; sério risco de morte. A cabeça sempre foi muito importante para mim, principalmente na infância, quando eu sentia que era dentro da cabeça que toda a existência se dava. Agora mesmo, ao escrever estas memórias, senti-me tonto e ameaçado por um pensamento indesejado: tudo o que é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; não sou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, certo?; tudo o que é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; é extrínseco ao meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; sendo assim, se eu falo da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; cabeça, minha cabeça não sou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; mas tenho a forte impressão de que o &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; fica na cabeça (ou mente), e imagino que vocês também a tenham; aliás, como vocês viram algumas frases atrás, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; mesmo posso falar de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mim&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; mais do que isso, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; posso falar do meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;; e se falo do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;meu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; eu, isso sugere que meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; é extrínseco a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mim &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;mesmo; grandes paradoxos; como é possível saber, então, o que exatamente é esse &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou se ele realmente existe? Caralho &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; deixa eu afastar esse pensamento! Às vezes a importância da cabeça para mim se acentuava tanto que minha cabeça acabava sugando o resto do meu corpo para dentro dela, e &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; em vez de andar com minhas pernas &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ficava rolando de um lado a outro, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; = &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha cabeça&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Deram-me um copo d’água com açúcar para que eu me acalmasse e tentaram me convencer de que tinha sido apenas um pequeno machucado inofensivo, que a pele da moleira logo se regeneraria e meu crânio voltaria a se fechar, o que eu não engoli com facilidade, nem com a ajuda do líquido que me deram. Continuei chorando e tremendo, muito preocupado, acreditando que aquela poça de sangue na qual eu mergulhava a ponta dos meus dedos poderia representar minha futura (breve) morte. Para que eu me acalmasse de vez, mas chateados por terem que parar de assistir a novela, levaram-me ao apartamento de um vizinho que era médico para que ele me aliviasse e me deixasse mais seguro de que não eu corria o menor risco de vida. Ou melhor &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; o menor (e muito menos o maior) risco de morte. Ou melhor, não &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou pior! Ele me examinou minuciosamente, com muita atenção e curiosidade, um sorrisinho egoísta no rosto como um cientista que descobre uma fórmula nova, e após exigir toda a sorte de exames (que bom que exigiu sorte, porque se exigisse todo um azar dos exames me deixaria ainda mais nervoso) cujos resultados diagnosticaram quatro letrinhas maravilhosas: A, R, T, E.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;MÉDICO: Seu filho a partir de agora, madame, é irremediavelmente um artista. O quadro que caíra na minha cabeça era um original de Paul Klee. A quina do quadro, ao rasgar a finíssima pele da minha moleira, abriu uma pequena fresta no meu crânio, e através desta brecha entraram duas gotas de tinta vermelha que pingaram do quadro, levemente derretido pelo calor de 45 graus que fazia aquela tarde, tinta que havia sido misturada pelo próprio Klee em seu ateliê e que consequentemente continha o gene, o germe, o verme do artista, que se infiltrou e tomou meu cérebro por inteiro. Desde muito cedo eu já possuía sérias propensões, sérias tendências artísticas, caralho, mas aquele acidente fez de mim um artista por definitivo, sem qualquer sombra de dúvida possível, como se &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, a partir dali, fosse meu DNA, meu sobrenome, um nome que não se separa do meu de maneira alguma, que não se separa do meu nome, do meu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, do meu Ser: um nome &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sobre&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; o meu. O predicado imutável de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;minha&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; pessoa. Então, a partir daquele dia, dizer meu nome implicava dizer &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; estava subentendido &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; dirigir-se a mim implicava se dirigir a um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Antes de homem, eu era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Antes de ser humano, eu era &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Aliás, eu não &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;era&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista; eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sou&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista, no presente. No presente, no passado e no futuro, mas sempre no presente. Eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;era&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sou&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, eu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;serei&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, sem dúvida, artista. Artista é dos meus predicados aquele que se antecipa a todos e não dá lugar a nenhum dos outros predicados que eu possivelmente possa ter. Estável. Imutável. Inabalável.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Que sorte, a minha. De outro modo, imaginem, eu só &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;seria&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; de fato artista enquanto estivesse executando o meu trabalho de criação, no ateliê, no gerúndio, apenas nestes momento de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ação &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu poderia dizer a mim mesmo e aos outros que eu era (sou) artista. No dia-a-dia, no cotidiano, não fosse o acidente, tudo me seria extremamente doloroso, pois qualquer outra coisa que eu fizesse que não fosse &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;arte&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; incitaria o meu cérebro a me gerar dúvidas quanto a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ser&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não ser&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; artista, quanto a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ter&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não ter&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; dons artísticos. Nesse aspecto, aquele mal me veio para bem. O acidente veio para me fornecer tranqüilidade eterna. Se não fosse assim eu precisaria renunciar a todas as outras coisas da vida, da minha vida, em função da segurança em relação ao predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Não me envolveria com mulheres, pois o fazendo estaria exercendo o papel de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, estaria &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sendo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; homem, estaria preenchendo e ocupando a lacuna do predicado &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; que fica logo ao lado da lacuna do sujeito (&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu sou, eu tenho&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; com a palavra &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. Isso poderia ser muito prejudicial ao meu principal papel no mundo, que era (e ainda é, e ainda será) ser artista. Aliás, papel não &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; chumbo; ferro; metal. Se eu relaxasse demais sendo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, se eu me deixasse levar por inteiro pelo prazer de ser &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, isto é transar com mulheres, ser = transar, seria inevitável deixar de lado por um momento o predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;para me dedicar ao prazer sexual, e talvez, nesse breve momento de relaxamento, distração e perda do domínio, meu lado artístico se desfaria, se desintegraria, e depois &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; após a relação sexual &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; quando eu fosse recuperar meu lado artístico, não conseguiria mais acessá-lo; só restaria para mim o predicado de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, impedido de ser ao mesmo tempo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;artista&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Você não deveria ter se deixado levar!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; eu diria para mim mesmo, chorando. Seria preciso que eu ficasse o tempo inteiro atento para ver se ainda possuía aquela preciosa faceta da minha essência e personalidade, nunca podendo estar à vontade com as outras delícias da existência. Ou então, teria que foder pintando; mesmo que fosse pintando mentalmente, distante do momento presente, sem a dedicação e concentração necessárias para satisfazer a mulher ou satisfazer a mim mesmo. Todo o resto das coisas que existiam (e ainda existem) para ser feitas, tudo o que não é &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;arte&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, afastar-me-ia, potencialmente, do centro, do âmago do meu ser. Do âmago artístico do meu ser artístico. Enquanto eu estivesse sendo pai, por exemplo, onde ficaria o artista? Enquanto eu estivesse sendo jogador de xadrez, por exemplo, em que canto descansaria o artista? É esse o problema: nenhum descanso é seguro. Quem nunca prolongou o tempo de vigília, quem nunca forçou a insônia, com medo de dormir e nunca mais acordar? Não há nenhuma garantia. Bom, felizmente para mim, eu posso ser homem e artista ao mesmo tempo, a hora que eu quiser, pois meu cérebro estava (está) irremediavelmente contaminado com o néctar vermelho de Paul Klee. Posso relaxar sendo homem, sendo jogador de futebol, sendo qualquer coisa, que no fim é certo de que ainda serei um artista. A hora que eu quiser. Agora que eu quiser. Graças às quinas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;E quanto a vocês, outros artistas do mundo, fadados à insegurança &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; como fazem para suportá-la? Vocês que, de uma hora para outra, da noite para o dia, podem vir a descobrir a verdade, que pode acabar revelando que vocês não são verdadeiramente artistas... Que tudo não passou de uma mentira, de uma auto-ilusão... Que vocês tiveram um relâmpago de criatividade, talvez, numa certa época da vida, mas agora tudo o que resta é seguir uma outra carreira e assumir uma impossibilidade... Pois a vida é assim, cheia de limitações, impossibilidades e desejos não realizados, não realizáveis e, por fim, e pôr fim, e... enfim. Pois a vida é cheia de ameaças; cheia de coisas que amamos mas que infelizmente não são feitas para nós, coisas que amamos mas tudo o que podemos fazer é admirá-las à distância, de longe, na posse de outros. Pois antes daquele acidente, quando eu tinha quatro ou cinco anos de idade, todo poema que eu escrevia, cada palavra que eu colocava no papel, além de ser a expressão de um sentimento, além de ser a execução de uma idéia, era um teste para mim mesmo, uma constatação, uma tentativa de alcançar uma resposta definitiva para a seguinte pergunta: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Sou ou não sou poeta?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Ao final do poema, na última sílaba da última estrofe que eu deitava no papel, eu desejava que a resposta, acompanhada de um brilho intenso, fosse positiva. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Sim, sorria! Você é mesmo poeta!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Hoje, graças às quinas, não sofro mais destas inseguranças.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-3027919606126067144?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/3027919606126067144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=3027919606126067144' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/3027919606126067144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/3027919606126067144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/05/pesadelo-4.html' title='Pesadelo #4'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-89536609903118486</id><published>2007-05-20T22:00:00.000-07:00</published><updated>2010-06-04T10:05:11.594-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #5</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;  text-transform: uppercase; font-family:'Bodoni MT', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Ele estava &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%;  font-family:'Bodoni MT', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;começando&lt;/span&gt;&lt;span style="text-transform:uppercase"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;a se cansar de ficar sentado ao lado da irmã à beira do lago sem ter nada pra fazer: uma ou duas vezes ele tinha espiado a irmã injetar mais uma dose de heroína em suas veias estufadas e feridas, mas de resto estava tudo um sincero e pesado tédio naquela tarde nublada de um domingo pálido e sem sangue.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Ele, na verdade, sou eu. Desculpem-me a indecisão, caros leitores, mas resolvi narrar na primeira pessoa daqui em diante. NOTA: A &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;primeira&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; pessoa ser justamente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, é um exemplo de que a própria língua – a linguagem verbal, em geral – propicia ou estimula o egocentrismo, o subjetivismo humano. NOTA: Para os mais desinformados, o significado etimológico da palavra &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;leitores&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; é: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;produtores de leite. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Mas, por favor, não há motivo para que se preocupem ou sintam-se ofendidos e queiram abandonar o meu livro assim tão cedo: basta que escolham entre fazendeiros ou vacas – entre os que apertam as tetas e os que têm as tetas apertadas. É essa a primeira tomada de posição que exijo de vocês, agora, antes de seguiram a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;leitura&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;OK?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Enquanto com um canivete multifuncional eu tentava gravar o meu nome num tronco de árvore (para que nunca o esquecesse, em hipótese alguma – e a árvore é enraizada, ela não vai a lugar nenhum) minha irmã parecia entrar numa overdose. Porém, considerando os gemidos que ela emitia no momento, a overdose é que parecia entrar nela. O grande problema era que naquela data eu ainda não sabia o que significava overdose e nem tinha um dicionário ao alcance para buscar às pressas. NOTA: A primeira vez que a gente busca um dicionário para ver o que significa dicionário, é impossível esquecer. Então, da minha parte, não havia muito o que fazer para ajudá-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Minha irmã vestia uma curta e infantil saia vermelho-sangue com bolinhas banco-cocaína e uma camiseta preto-luto muito justa com mangas muito curtas para deixar os braços livres facilitando a procura de veias verdes transparecendo na pele branca. Seus olhos se fechavam cada vez mais. Seus olhos cada vez mais ganhavam peso, como se um cisto de chumbo se formasse no interior de cada pálpebra. Os globos oculares reviraram-se para cima, involuntariamente, como se quisessem inverter sua posição padrão e passar a olhar apenas para o próprio cérebro e não mais para o mundo miserável e perdido que ficava à frente. Uma atitude muito narcisista, pensei, mas típica da minha irmã. Por outro lado, o lado direito, talvez os olhos quisessem apenas girar trezentos e sessenta graus. Ver o próprio cérebro e depois ver o mundo de novo, e assim sucessivamente. Girar, girar, girar, como aquelas máquinas caça-níqueis em que você puxa uma alavanca e as três casas giram exibindo diversas figuras e se caem três figuras iguais dá JACKPOT e você é um homem rico com as moedas que chovem das nuvens negras do capitalismo. Os primeiros movimentos convulsivos dos olhos pareciam ser para engrenar o motor, como quando giram com as mãos a hélice de um avião para que em algum momento ela faça barulho e gire sozinha. Diverti-me com a possibilidade. Agachei-me curioso frente à minha irmã e observei seus olhos atentamente para conferir quais figuras apareceriam ali: cerejas, cifrões ou figuras geométricas? Imaginei que se desse JACKPOT as moedas cairiam do seu nariz ou da sua boca ou das suas orelhas ou da sua vagina. Eu até que não me sentiria constrangido em colher as moedas lubrificadas cuspidas de sua vagina, já a tinha visto nua inúmeras vezes antes daquele dia. Além disso – na verdade antes disso – numa tarde do passado, ela estava com uma amiga lá em casa e estava trocando de roupa e estava, e ao me ver passando pelo corredor ela deitou nua na cama, olhou para mim, abriu as pernas, abriu a vagina clinicamente com ambas as mãos e me ofereceu perguntando: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Quer, menino?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – e eu saí correndo na direção dela para pular na cama, sorrindo, feliz, como se estivesse prestes a mergulhar numa piscina de bolas, porque eu tinha sete anos de idade e certamente queria uma piscina de carne como aquela. Mas quando me aproximei da cama ela fechou as pernas bruscamente e se levantou, deixando meu pauzinho endurecer sozinho no pouco apetitoso colchão. Para mim, extremamente decepcionado, foi como num tenso jogo de videogame quando a porta do último castelo se fecha subitamente no momento exato em que você chega perto dela, ela fechou as portas do suculento castelo de carne avermelhada e molhada, saiu da cama, começou a rir juntamente da amiga, zombando de mim. E eu que tinha acreditado piamente que ela estava falando a verdade, que realmente queria que eu me deitasse por cima dela. Naquela época eu já sentia muita vontade de fazer aquela coisa que chamavam de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sexo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, porque além de começar a sentir o desejo pela coisa, eu queria ser experiente como os mais velhos e nunca mais ser tratado como uma criança ingênua que não sabia de nada daquelas coisas que pareciam mover a vida, mover o mundo. É uma característica muito forte minha, eu nunca fiquei satisfeito com as limitações que a minha idade me impunha, socialmente, e por isso sempre tive e mantive algo de além, desenvolvendo potencialidades de uma idade mais avançada. A maioria das outras crianças, eu percebia, contentavam-se em ser crianças; mas eu não, eu sentia uma pressa desesperada em ser adulto, em fazer as coisas que aparentemente só os adultos podiam fazer. Aliás, é por isso que em geral as crianças são tratadas de forma inferior, como se as coisas que elas falam ou pensam não tivessem tanto valor, não fossem tão válidas, apenas porque elas ainda não transam, não transaram. Translação, rotação, sexuação. O problema é que às vezes chegavam a me tratar não somente como alguém que não sabia de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sexo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;, mas como alguém que nunca saberia. Uma outra noite da minha breve infância aconteceu d’eu ser tratado dessa forma: minha irmã estava com duas amigas lá em casa e eu estava junto delas enquanto elas conversavam na sala; uma delas tentava formar figuras com a sombra das mãos projetada na parede através da luz do abajur, e após fazer um pássaro e um coelho ela fez repetidamente um gesto com o dedo indicador da mão esquerda entrando e saindo do buraco formado pela união do polegar com o indicador da mão direita, com os outros três dedos para cima, como no sinal de OK. Todas riram horrores ao ver aquele gesto projetado na parede e a menina que produzia a sombra olhou para mim insolentemente e comentou que eu estava “boiando”, ou seja, sem ter qualquer ideia do que aquilo significava. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Você sabe o que é isso?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – perguntou ela para conferir a minha ignorância, com um sorriso escroto no rosto. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Sei sim&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – eu respondi, elas olharam para mim, esperando que eu completasse minha resposta. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;É pau na xoxota!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – falei com vontade. Elas riram mais alguns horrores, duas delas morreram de rir. Não esperavam aquela resposta passando entre os dentes de um menino de apenas sete anos de idade. Começaram a rir, logo estavam gargalhando e não demorou para que perdessem o ar e ficassem roxas e duras, feito músculo ereto, animal empalhado, defunto conservado em formol, sem corrente sanguínea nem respiração, caídas em destaque no meio sala. Na época eu tinha convicção de que todas as amigas da minha irmã olhavam para mim com segundas intenções, esperavam-me crescer com ansiedade para que eu atingisse uma boa idade e pudesse foder com todas elas. Lembro de que a menina que fazia as sombras era descendente de japoneses e tinha os olhinhos puxados; &amp;amp; a partir daquela noite eu desejei ansiosamente que o tempo passasse correndo até que eu tivesse idade suficiente para seduzi-la e fazer dela a minha primeira boceta. Tá aí! – não é que eu não pudesse ou não tivesse a capacidade de seduzi-la e fazer dela a minha primeira boceta com a idade que eu tinha; eu, comigo, sentia-me perfeitamente capaz de fazê-lo; o único motivo pelo qual eu realmente desejava que o tempo passasse para isso era porque os outros, a sociedade, as meninas, enfim, todos pensavam de outra forma e não me aceitariam em suas camas. Ela era cerca de seis anos mais velha do que eu, diferença que então era um abismo, mas um abismo que não me intimidava, que não me causava a menor sensação de vertigem (a não ser no bom sentido). NOTA: O meu crescente fascínio sexual pela amiga descendente de asiáticos da minha irmã se deu porque mesmo naquela época eu já tinha ouvido falar que a boceta das japonesas, diferente das ocidentais, era na horizontal. Um rasgo horizontal. E isso aumentava em muito a minha curiosidade pelo corpo daquela menina, da qual eu não lembro – ou não quero divulgar – o nome. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Mas não era nada do tipo caça-níqueis o que acontecia aos olhos da minha irmã. Além disso, não havia necessidade, de dinheiro ela não precisava, era ela sozinha quem sustentava toda a nossa família. Vocês certamente a conhecem ou no mínimo já ouviram o seu nome: minha irmã era uma modelo mundialmente famosa e aquele domingo insosso era o seu dia de folga. Ela começou a cambalear e ameaçar cair para um lado; com dificuldade recuperava a postura e ameaçava cair para o outro, como um João Bobo, ou alguém resistindo a um sono incontrolável num ônibus cheio que chacoalha na noite. NOTA: Essas pessoas no ônibus são muito divertidas de se observar. Elas estão morrendo de sono, os olhos se fechando involuntariamente, a cabeça se movendo lentamente sem rumo no espaço como se estivesse levemente destacada do pescoço mas ainda se equilibrando sobre o mesmo, a força da gravidade exercendo uma pressão especial em seus corpos, então eu e um amigo, talvez Jean, olhamos e dizemos &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Ih, olha lá, dormindo feito um bode!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – e quando o ônibus se precipita num buraco um pouco mais profundo e dá uma chacoalhada um pouco mais forte a pessoa desperta com muita naturalidade, forçando a naturalidade, apenas abrindo os olhos, como se não tivesse dormido e na verdade como se não sentisse sono algum, olhando ao redor com a cara esticada e ao mesmo tempo com aquela expressão de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Quem? Eu?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; para o caso de alguém estar observando sua luta contra o sono como um espectador de boxe, o que na maioria das vezes é o que acontece; e então tenta passar a lutar esgrima (que é mais sutil) contra o próprio sono, e na maioria das vezes perde feio e termina babando no ombro do vizinho. Minha irmã era uma alta e magra &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;top model&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; decadente e mundialmente famosa e aquele domingo pálido e sem sangue era o seu dia de folga (...) e nos dias de folga, principalmente nos domingos tediosos congelados como salgadinho estocado no freezer após festa de família, ela gostava de se dedicar à injeção de heroína, uma de suas maiores paixões, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;hobby &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;de longa data.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Ela se inclinou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;tanto&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; para o lado direito – e seus olhos 85% fechados, 15% abertos – que achei que o João Bobo fosse tombar de vez; mas resistiu e retornou ao ponto central, logo se curvando para o outro lado, como uma múmia sonâmbula que tem no centro da bunda a maior densidade do seu corpo, que naquele momento possuía apenas 10% de sua força total. Ela vestia uma calça de couro preto e uma blusa de renda escura que deixava transparecer os seios desprovidos de sutiã com seus mamilos amarronzados e usava uma maquiagem negra e pesada que deixava seus olhos fundos e seu rosto extremamente sombrio, como uma vampira de filme B hollywoodiano. Alta e magra, minha irmã nos dias de folga costumava ficar muito folgada, e minha missão ao acompanhá-la era protegê-la, impedir que ela folgasse demais com os outros ao ponto de se envolver em discussões ou brigas físicas na rua. Nunca se sabe quando alguém vai puxar o ferro e explodir o crânio do próximo. Era esse o lema da minha família. Eu precisava ir junto para que quando ela perdesse o controle eu pudesse lembrá-la de que ela estava em seu dia de folga, e não de abuso. Há uma ligeira diferença. Ela xingava gratuitamente as pessoas que passavam ao seu lado ou à sua frente ou às suas costas. Algum fã sempre vinha pedir um autógrafo e ela sempre dizia que só daria se fosse no cu dele. O fã ficava ofendido e ela o mandava ir à merda e dizia que para foder sua mãe ela vestiria um pênis postiço e autografaria suas costas repetidamente enquanto ela quicava para frente. Às vezes ela corria sorrateiramente atrás de um careca para acertar-lhe em cheio um tapa na cabeça pelada e saía correndo ainda mais rápido e rindo muito. Da última vez ela levou uma flanela com creme lustra-móveis e começou a polir a careca de um velho que ameaçou bater nela com sua bengala de madeira escura inteiramente tomada por cupins. NOTA: Seu corpo inchou como se alguém a inflasse por um novo orifício invisível, os olhos se fecharam de vez e ela enfim tombou. A overdose estava fazendo o seu trabalho. Foi nesse momento que surgiu na linha do horizonte, correndo em nossa direção, um homem desengonçado anotando coisas com extrema rapidez no que parecia ser um caderno de notas ou uma agenda. Enquanto rabiscava com suas mãos terrivelmente ágeis ele fazia estranhos movimentos com a boca e com a língua, como se tentasse falar e não conseguisse e ficasse nervoso com isso. Mais ou menos como se tirassem o som de um filme falado, a diferença nesse caso sendo o notável desespero estampado nos movimentos convulsivos do homem suado, jorrando suor através de seus poros dilatados e nervosos como os de um viciado em cocaína em crise de abstinência. Andava de forma muito estranha, como se a cada passo que desse um de seus membros se deslocasse, braços ou pernas, vértebras ou clavículas, para no próximo passo voltarem a se encaixar enquanto um outro braço, uma outra perna, uma outra vértebra ou uma outra clavícula se deslocasse novamente. Parou logo à nossa frente, quando ainda faltava a última letra do meu nome a ser gravada em baixo relevo no corpo da árvore, olhou para a minha irmã e com expressão gravíssima no rosto começou a gesticular com muita ansiedade, para me comunicar algo que parecia ser de extrema urgência. Minha irmã, desacordada no chão, começou a expelir da boca uma grossa gosma branca e a sofrer espasmos cada vez mais bruscos e violentos que produziam sons de como se seus ossos estivessem sendo quebrados e triturados. O homem enigmático continuava diante de mim, suando rios, e olhando-me com cara de bebê que quer papinha mas não sabe se expressar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;O que foi? Não consegue falar? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;– perguntei, ao mesmo tempo presumindo que todo aquele suor que jorrava do seu corpo indicava um grande e excessivo cansaço físico, que por sua vez sugeria que o homem talvez não conseguisse falar por falta de fôlego. Eu começava a ser contagiado pelo nervosismo do homem, que não conseguia se manter quieto e ficava a cada segundo mais angustiado, alternando o olhar entre minha irmã e eu, minha irmã e eu, minha irmã e eu, o olhar para minha irmã transbordando desespero e o olhar para mim transbordando apelo. Seus olhos eram (ou estavam) tão redondos e esbugalhados que pareciam poder se desencaixar e saltar do seu crânio ossudo a qualquer momento – e mesmo do lado de fora permanecerem inchados e esbugalhados no nada, saltando pelo chão e pelo ar como indomáveis bolinhas de borracha saltitantes que fazem &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;tóin&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ao bater nos obstáculos. Ele pressionou seus olhos para dentro, pois minha suspeita era correta: estavam prestes a pular. Foi quando ele resolveu se acalmar e rabiscar algo rapidamente em seu caderno e aproximar-se de mim para me mostrar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Eu não falo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – diziam os garranchos. Recuei no mesmo instante, como alguém recua de uma caixa desconhecida que faz tic tac tic tac e que pode ser bomba-relógio. Esbugalhei os olhos eu mesmo, de espanto. Fiquei boquiaberto eu mesmo, de espanto. Deus do céu, que espanto: um &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;humano&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; que &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não fala&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;! Era de longe (e também de perto) a coisa mais absurda que eu já tinha presenciado em toda a minha vida. Daquelas coisas que se fosse um outro que me contasse eu zombaria da cara do coitado, resistindo a acreditar. Era, vejam só, o equivalente (inverso) a encontrar uma formiga dando autógrafos no lançamento do seu livro ou então um coelho que por ventura resolvesse abrir a boca e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;falar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;! O tempo passava (e ainda passa) e a gosma que minha irmã expelia da boca ficava (e ainda fica) cada vez mais grossa e cada vez mais branca – exatamente como seria se fosse possível assistir o esperma se nutrindo dentro de um escroto, passando de transparente a branco, de ralo a consistente – e já formava um longo caminho viscoso por cima da grama. Os espasmos convulsivos cada vez mais violentos &amp;amp; pelo som eu diria (quer dizer, já estou dizendo) que os ossos se trituravam a cada espasmo como se alguém tentasse fazer um suco de ossos num liquidificador. Aquele ser &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;humano&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; que &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;não&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; falava – aquela minha visão que por alguns instantes desconfiei que pudesse ser alucinatória de tão absurda que era – rabiscou outra coisa em seu caderno e veio para perto de mim para me mostrar, dessa vez com cautela, porque notou que eu estava estupefato com a sua inimaginável existência. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;O.ver.do.se&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps;mso-bidi-font-weight:bold"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sf&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Superdose, dose excessiva, &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="EM ESPECIAL DE TￓXICOS" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;em especial de tóxicos&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;escreveu ele, em seguida apontando com o próprio caderno na direção da minha irmã. Só então compreendi que ela corria risco de vida – ou melhor, de morte – porque, então, a palavra overdose me veio acompanhada de um pensamento &amp;amp; entrei em pânico, pois eu a acompanhava com a função de protegê-la de todo e qualquer perigo que o mundo a oferecesse – vai perigo, aí? – eram essas as ordens que eu recebia de meus pais. Quando, por exemplo, alguém a via se drogando e tentava dar a ela uma lição de moral, importunando-a com comentários inúteis e sem sentido tais como &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;as drogas não vão te levar a lugar nenhum, minha filha &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;eu logo tratava de cortar a onda do chato dizendo que ele estava muito equivocado naquele julgamento porque &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;quer saber um lugar ao qual a droga leva, possivelmente? Ao hospital – e o hospital até onde eu sei é um lugar, não é não?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Ah, e também à boca! a droga te leva ao lugar onde se vendem drogas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;E o chato, coitado, impiedosamente sofismado por mim, retirava-se cabisbaixo reconhecendo o erro que cometera e mudando mais um de seus conceitos pobres, limitados e atrasados. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Como podemos salvá-la? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;– gritei para o suarento desengonçado, que conforme se acalmava começava a mostrar um pouco mais do seu jeito malandro de se mover e se portar. Ao redor de si ele colecionava poças de suor, fiquei tentado a estender o pensamento, transformá-lo numa piada e perguntar a ele há quanto tempo ele colecionava poças de suor e se era preciso pagar para ver aquela exibição. Desisti, felizmente. No momento eu tinha outras preocupações, mais importantes. Ele rabiscou mais algumas palavras e quase deslocou para sempre o braço direito ao erguer o caderno com pressa e euforia ao nível dos meus olhos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Apenas o sexo pode trazer sua irmã de volta à vida! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;– era o que estava escrito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;A situação era grave demais e eu sabia, então, que não poderia agir baseado em medos ou babaquices caso quisesse realmente salvar a vida da minha querida irmã. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant:small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Então vá em frente!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; – berrei na direção do homem, que parecia estar literalmente derretendo, como se suor fosse a mais nova forma, líquida, de sua pele, de sua carne, de seu osso, ao mesmo tempo em que estava assustado com a situação, olhando para a minha irmã preocupado com a sua vida, que a qualquer momento poderia virar morte, ele nitidamente olhava para ela com uma certa dose de tesão, às vezes se distraía e mordia os lábios e embaçava os olhos numa conhecida expressão de desejo sexual – mas logo se recompunha, voltando a perceber que estava de frente para o irmão da mulher e talvez lhe devesse algum respeito. Distraí-me por um momento com o pensamento hipotético de que talvez o tesão que o homem sentia fosse somente por causa do risco de vida que minha irmã corria naquele momento, pois mulheres tão bonitas assim ficam muito sexy à beira da morte; uma modelo decadente, viciada em drogas, com aquela maquiagem e aquela saia curta de couro preto deixando aparecer a calcinha, tendo uma overdose de heroína, numa posição frágil, vulnerável – tudo isso deixou o cara louco. Mas para o meu infortúnio ele ficou tão louco que resolveu me obedecer realmente &amp;amp; seguiu mesmo em frente, andando em linha reta, correndo e em poucos segundos saindo do meu campo de visão, sendo engolido pela linha do horizonte de onde havia saído há poucos minutos atrás. Deixando-me sozinho com a minha irmã.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center;line-height:115%"&gt;&lt;span style="Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;mso-bidi-font-weight:boldfont-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="color:#FFFFFF;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-89536609903118486?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/89536609903118486/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=89536609903118486' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/89536609903118486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/89536609903118486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/11/pesadelo-5.html' title='Pesadelo #5'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2785908124932388950.post-8310587797476530450</id><published>2007-05-10T21:59:00.000-07:00</published><updated>2010-06-04T10:05:27.612-07:00</updated><title type='text'>Pesadelo #6</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;A professora distribuía&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; as provas corrigidas. Jean nunca tinha tirado uma nota baixa sequer em toda a sua existência. Melhor dizendo, quer dizer, melhor escrevendo, Jean nunca tinha tirado sequer uma nota baixa em toda a sua existência. A prova era de múltipla escolha. Jean não tinha muita certeza de que se dera bem daquela vez. Jean era um garoto indeciso, por isso tinha mais dificuldade em provas de múltipla escolha. Se a prova tivesse sido de única escolha, teria facilitado as coisas para Jean. É um problema sério não ser decidido ou impulsivo diante de uma multiplicidade. Ouviu seu nome saindo da boca da professora e levantou-se muito rapidamente, ansioso para conferir sua nota, causando um barulho estrondoso ao arrastar a carteira consigo com violência. A carteira estava no bolso de trás de sua calça. Voltou decepcionado, percebendo sua carteira torta, desarrumada, destacada de todas as outras. Era o primeiro zero de sua vida. Mentira. Inúmeras de suas provas já tinham vindo com um zero marcado, mas, até aquele dia, todos os zeros sempre tinham vindo acompanhados pelo número um à esquerda. O zero daquele dia estava sozinho. O que aconteceu com o número um? Perdeu-se? Antes mesmo de se sentar deu meia-volta e resolveu argumentar com a professora. Disse que ela era uma fascista tirana filha da puta que não respeitava a opinião dos outros, pois tudo – tudo! – nessa vida é questão de ponto de vista, não existem verdades absolutas, se ele achava que a letra B era a resposta certa e não a letra A, ela não poderia dar-lhe um zero por causa disso, a letra B era a verdade dele e esta deveria ser respeitada pelo bem da diversidade, já que a prova é de múltipla escolha, que se permita, então, que as escolhas sejam múltiplas, se uma professora acha que a resposta certa é a letra A e tenta impor esta visão unilateral a toda uma turma de mais de trinta alunos, então ela é uma fascista, quer que todos sigam a sua verdade de forma arbitrária e por isso merecia morrer. Merecia ser queimada nas fogueiras crepitantes da contra-inquisição. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Pela primeira vez estou contando para alguém sobre o meu velho amigo Jean, uma figura curiosa, peculiar, por diversos motivos. Primeiramente, só para vocês terem uma ideia do que eu estou falando, ele era o ser humano mais fino do mundo. Fato registrado, inclusive, no livro dos recordes: ele era muito alto, tinha dois metros e cinco centímetros de altura, porém, visto tanto de frente quanto de perfil, tinha apenas dez milímetros de largura, ou melhor, de finura. Ao longe, dificilmente era enxergado. Sua empregada domesticada, quer dizer doméstica, uma vez o encaixou na base de uma vassoura e varreu a casa inteira se perguntando de onde vinha aquela voz fina e aguda que não parava de reclamar alguma coisa. Só no fim do expediente é que ela se deu conta de que tinha confundido o próprio patrão com um cabo de vassoura &amp;amp; Jean se enroscou ao redor do pescoço dela como uma corda viva e arrumou tudo para que parecesse suicídio, o que a polícia e a imprensa engoliram com facilidade, com a ajuda de uma cervejinha. No dia seguinte, primeira página: &lt;/span&gt;&lt;span style="font-variant: small-caps"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;empregada doméstica tira a própria vida enforcando-se com o próprio patrão.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; Enfim, conforme foi envelhecendo Jean foi ficando mais largo, foi ganhando largura, aos vinte anos tinha uns trinta metros de largura. Mas a época de sua vida que nos importa no presente momento é a época em que Jean tinha oito milímetros de largura e apenas oito anos de idade. Sua mãe precisava remendar uma saia velha de que gostava muito e confundiu Jean com o material de costura, mais precisamente com a linha, e o costurou à máquina na barra de sua saia. É uma história triste, e as lágrimas escapam dos meus olhos, agora, ao contá-la para vocês, e eu peço que vocês também chorem. A mãe de Jean, protetora e paranóica como era, fez circular na cidade milhões de cartazes com a foto do filho, oferecendo inclusive boas recompensas em troca de informações úteis que a ajudassem a localizar o paradeiro do menino. O que me lembra algo que aconteceu na minha casa, mais ou menos naquela mesma época, quando também eu tinha apenas oito anos – de idade. Nossa tartaruga ficou desaparecida por semanas, várias semanas, chegamos a desistir de procurá-la, chegamos a conformar-nos com o seu desaparecimento, e de repente, enquanto procurava documentos importantes, a encontrei no interior de uma gaveta de cabeça para baixo, com a barriga para cima, balançando os membros, desesperada para poder andar novamente, cercada de papel e entulho, incapaz de virar o próprio casco. Similar ao que aconteceu a Jean. Todos já tinham perdido a esperança, que em certos casos é a primeira a morrer. Apenas dois anos depois, quando Jean já tinha completado dez anos de idade, descobriram que ele havia passado todo aquele tempo preso à barra da saia da mãe. Na verdade, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;sendo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; a barra da saia da mãe – o que era ainda pior. A saia foi enviada a uma costureira chinesa especialista nestes casos e Jean foi removido com sucesso, em perfeito estado. Em perfeito estado fodido. A nossa tartaruga, chamada Joana, era engraçado, os anos passavam e ela continuava minúscula, cabia na palma de minha mão. Nós não compreendíamos porque ela não crescia, até que um veterinário nos alertou: nos a criávamos dentro de uma caixa de sapato, ali colocávamos sua água e sua comida, alfaces e uvas, pois morávamos em apartamento e não havia nenhum quintal ou jardim onde deixá-la solta, e deixá-la solta no apartamento ofereceria sérios riscos a ambas as partes, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;ela&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; poderia ser pisoteada pelos nossos pés, e &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;nossos pés&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; poderiam pisar acidentalmente em seu xixi ou seu cocô, e isso não seria lá muito legal; o veterinário disse que a tartaruga, vivendo numa caixa, um espaço fechado e tão pequeno, não cresceria mesmo, permaneceria minúscula para sempre, proporcional ao seu habitat; mas se a soltássemos ao mundo exterior, um quintal amplo, por exemplo, sem barreiras estreitas, ela cresceria muito, e rapidamente. E, sem dúvida, o mesmo se dá com as pessoas – em vários aspectos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;Depois do episódio da saia, a mãe de Jean ficou insuportavelmente mais protetora, mais do que antes já era; transformou-se numa super heroína, a Super Protetora. Sabem o que ela fez com Jean? Trancou-o no quarto, jogou a chave fora e saiu espalhando para todo o mundo que ele era um menino muito caseiro, um filho exemplar. Enquanto isso, louco para sair, louco para conhecer os perigos e os fascínios da rua, do mundo exterior, Jean tirava lasca por lasca da porta de madeira com suas unhas, que a cada quinze minutos perdiam um pedaço e seus dedos sangravam. Passados alguns meses Jean já não tinha mais unhas mas continuava a raspar a madeira com os dedos em carne viva, e a carne se abria em contato com as farpas e espirrava sangue aguado de vez &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="em quando. Passados" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;em quando. Passados&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; alguns meses mais Jean não tinha mais dedos, raspava a madeira com um cotoco de braço que lhe restou, até que seu braço estava quase que por inteiro gasto e a porta se desfez, ele raspou até a última lasca, até a porta não mais existir – mas em compensação seus braços não mais existiam. Quando sua mãe o encontrou sem braços, ficou muito triste e chorou, pensando “se ao menos ele tivesse perdido as pernas!”, pois sem os &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt;braços&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; ele ainda poderia se locomover e fugir para longe dela. E foi o que Jean fez. Fugiu de casa levando consigo apenas uma trouxinha vermelha de roupa presa à ponta de um cabo de vassoura. NOTA: Esta fuga será relatada mais tarde, num horário mais propício.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height:115%"&gt;&lt;span style="Bodoni MT&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="color:#FFFFFF;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2785908124932388950-8310587797476530450?l=os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/feeds/8310587797476530450/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2785908124932388950&amp;postID=8310587797476530450' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/8310587797476530450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2785908124932388950/posts/default/8310587797476530450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://os-mil-e-um-pesadelos.blogspot.com/2007/05/pesadelo-6.html' title='Pesadelo #6'/><author><name>Rômulo Cyríaco</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00669241116191072310</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_bqed_kNyfxQ/R9_iNNn9yOI/AAAAAAAAAAM/MLn0OCT5WLw/S220/baj_two.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
